sábado, 26 de janeiro de 2019

Fusca velho: nosso primeiro carro - Artigo 3 de 3 - Por Gesiel Oliveira

Foto meramente ilustrativa

Já se passavam 2 anos com o mesmo carro, se é que assim ele poderia ser chamado. Lembro que os dois paralamas da frente do fusca lembravam duas bochechas bem grandes. Certa vez meu pai pintou um dos paralamas dianteiros com a mesma tinta a óleo que pintou a porta da nossa casa. Eram tempos difíceis. Meu irmão mais velho colocou um rodão horroroso e a impressão que eu tinha, quando olhava o carro de frente, é que ele ficou “junteiro”. Além disso o rodão era empenado e fusca ganhou um "remelexo" insuportável.

Certa vez lembro de ter acordado com aceleradas altíssimas do carro em frente de casa. Quando saí pra olhar eis que o motor estava todo fora do carro em cima da calçada e o mecânico, Seu Pará, acelerando sem parar coberto com uma nuvem tóxica de fumaça. Aquela cena marcou tanto a minha vida que eu disse pra mim mesmo: “quando eu crescer eu nunca quero ter um fusca na minha vida”. Nosso carro ganhou um apelido: "Luciano Pavarotti", segundo meu tio porque "a cada canto, um conserto". Não entendi bem aquilo à época.

Interessante era que o fusca conseguia levar 9 pessoas, toda a nossa família. Quando a gente parava em algum lugar era impossível não se perguntar: “como cabe tanta gente num fusquinha?”. Mal  sabiam que ia um no colo do outro e mais um de atravessado quase numa organização de uma lata de sardinha. O desespero era quando algum engraçadinho resolvia soltar um "pum" dentro da lata de sardinha, aí era um "Deus-nos-acuda" de acusações com direito a tribunal da inquisição com julgamento de expressões faciais. Quem ria primeiro já era condenado automaticamente. As vezes o que ajudava o réu era aquele problema do  cheiro de gasolina constante que invadia o fuscão e disfarçava qualquer outro odor, e deixava todo mundo com aquele cheiro forte impregnado. Certa vez minha irmã, que na época tinha uns 10 anos, vinha voltando do culto e viu que algo se descolou da roda e saiu em direção ao mato na beira da pista. Meu pai gritou alto, corre lá e pega a “calota”. Ele parou o carro e minha irmãzinha saiu correndo rápido, procurando pelo mato, e logo depois voltou ainda ofegante para o carro  ao que o papai perguntou a ela: “você achou a calota?” e ela respondeu: “o que é uma calota papai?” kkkk.

Outra vez meu pai e minha irmã saíram cedinho da manhã pra comprar pão. Quando passavam em frente a igreja Jesus de Nazaré, eis que ela viu algo passar rápido e pulando ao lado do fusca indo em direção a beira da rua. Ela ainda chegou a dizer ao papai: “lá vai a roda pulando papai”. Era a roda inteira do fuscão que havia saído pulando enquanto o fuscão saiu de lado riscando o asfalto. Aquele fuscão teve tantas histórias engraçadas, mas nele todos nós aprendemos a dirigir. Meu pai (de saudosa memória) o dirigia e sempre dizia orgulhoso: “esse é meu e está pago” e também: “aonde o carro caro leva, esse aqui também leva”. Enfim, são memórias que guardo comigo e que sempre vem à tona quando me encontro numa roda de histórias com meus irmãos, hoje todos chefes de família. Espero que vocês tenham gostado. Até a próxima crônica.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Fusca velho: Nosso primeiro carro - Artigo 2 de 3 - Por Gesiel Oliveira.


Após a chegada do nosso “novo carro” e da empolgação inicial, começaram os problemas. No outro dia acordei ainda cedo e em frente a minha casa estava o fuscão velho parado com a tampa do motor traseiro aberto, e três analistas mecânicos "meia-boca" de pés, olhando para o fusca com a mão no queixo. Meu tio, meu pai e meu irmão mais velho. Os três olhando o motor na parte de trás do fusca sem saber o que impedia a ignição. Era apenas um problema de “junta”, gritava de longe um vizinho rindo, e eu não entendia o porquê da risada. 
Mesmo com a carga na bateria ele não funcionava. Alguns dias depois eu estava indo para a aula de Inglês no Fisk, que consegui por causa de uma bolsa. Eu era o mais pobre da turma. Resolvi pegar uma carona no fusca velho até a escola de inglês. Meu irmão mais velho foi dirigindo. Ele passava o dia todo lavando a lata velha só para dar uma voltinha. Quando estava próximo a escola, pedi a ele que parasse um quarteirão antes, que de lá eu iria a pé. Talvez por isso me apelidavam de “burguês” kkk. Pra completar o meu irmão mais velho era (e é) muito zuador, sabendo que a menina que eu gostava, era riquinha e costumava ficar com as amiguinhas na frente da escola de inglês antes de começar a aula, ele então resolveu me deixar só de pirraça bem em frente a escola, contrariando meus gritos de revolta. 

Chegamos debaixo de uma nuvem tóxica de fumaça e aos sustos daquele barulho ininterrupto do motor do fuscão, sempre repetindo as mesmas notas: “PÓ-PÓ-PÓ-PÁÁÁ”. Quem estava dentro da escola correu pra fora pensando que era um tiroteio, ou um curto circuito na rede elétrica, mas era apenas eu chegando na escola, enquanto meu irmão mais velho zuador, se acabava de rir. Naquela época não existia “bullying” kkk. Para meu azar a menina que eu gostava “platonicamente” estava lá na frente da escola. Eu saí do carro, dei uns passos meio fingindo que ela não estava ali, foi quando escutei o barulho atrás de mim: “nhon-nhon-nhon-nhoooooonnn”. Era o motor do fusca que havia parado, morreu bem ali na porta da escola. 

E agora meu irmão me chamava alto para empurrar o fuscão. Pra completar alguns alunos vieram ajudar. Pense numa saia justa para um pré-adolescente tímido ! Meu irmão gritava: “agora vai”, e nada! Mais uma tentativa, e nada. Até que lá pela quarta tentativa, o fuscão tremeu todo, parecia que estava “convulsionando”. Eu até me assustava com o barulho da tremedeira da carroceria com a lataria solta, e “PÓ-PÓ-PÓ-PÁÁÁ”, funcionou! Quando eu achava que tudo já estava resolvido, e eu agora todo suado já ia retornando para a escola de Inglês, de repente um outro barulho estranho vindo de trás, que eu ainda não tinha escutado: “krriiiiiinnnnnnnn”, olhei pra trás e a longarina do lado direito do fusca havia sacado, se soltou de tanta ferrugem e estava arrastando no asfalto. Novo pedido de ajuda. Amarramos a peça com uns fios, numa “engalicada” horrorosa, e lá se foi o fuscão com seus “chiliques”. 

Depois de alguns meses eu aprendi a dirigir. Resolvi então pegar o carro escondido da mão do mecânico que chegava em casa e que disse que havia acabado de consertar os freios. Resolvi, sem autorização do meu pai, dar uma volta no quarteirão. Quase o mecânico não me entregou a chave, mas eu consegui tomar. 

Ao meu lado, no banco do carona, estava minha priminha que entrou no carro sem pedir. Ela na época tinha uns 8 anos. Foi apenas uma volta, e quando eu vinha descendo a ladeira da rua da minha casa, meti o pé no freio e nada! Minha alma se descolou do meu corpo em frações de segundo. De longe o mecânico gritava: “bombeia, bombeia, bombeia o freio”. Eu fiz a direção para dobrar à direita e entrar na garagem, puxei o freio de mão e a maçaneta do freio arrancou inteira na minha mão, pois estava lá só de enfeite. Puxei a direção do carro para a garagem onde estava o mecânico e não dava tempo do mecânico sair da minha frente. Eu consegui ver o desespero nos seus olhos com as mãos erguidas gesticulando rapidamente para parar. Fechei meus olhos e imaginei: “vou virar um assassino agora” e aguentei a pancada: “POW!” na mureta da garagem. Eu ainda fiquei de olhos fechados, talvez esperando que quando os abrisse, o mecânico estaria morto. Quando abri devagar meus olhos, o mecânico estava pendurado na mureta onde eu acabei a frente do fuscão. Ele deu um salto bem alto que salvou sua vida. Olhei para o lado e minha prima estava com uma laranja na testa, mas sorrindo e achando tudo muito legal. 

Ficou um buraco na mureta por um bom tempo. Sempre que eu chegava em casa, mesmo depois de muitos anos e via aquele buraco, me lembrava do dia que virei um assassino kkkk. Lembranças boa! Amanhã, termino essa série sobre o fuscão velho, contando o dia em que meu irmão adotivo fez o fuscão voar por cima de bueiro alagado e o dia em que minha irmãzinha viu uma roda de carro passar ao lado do fusca. Mas é só amanhã kkk.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Fusca velho: nosso primeiro carro - Artigo 1 de 3 - Por Gesiel Oliveira.

Foto meramente ilustrativa

Artigo 1 de 3:

Lembro-me em memórias que se delongam pelos idos de 1990, quando eu tinha apenas 12 anos. Na minha família o meu apelido era “burguês”, nunca entendi direito a real motivação kkkk. Mas nessa idade, era membro de uma família de 9 pessoas. Passávamos uma dificuldade financeira muito grande. Meu pai (Pr Nery Ferreira, de saudosa memória) na época dirigia uma igreja evangélica, mas ele trabalhava voluntariamente, e durante o dia se virava como fotógrafo para dar sustento a tantas bocas. 

Meu pai Pr Nery Ferreira (de branco), meus irmãos, primos nessa época


Minha mãe era dona de casa dedicada aos seus filhos. Tínhamos duas bicicletas muito velhas, uma barra forte vermelha do meu pai e uma Caloi, modelo Ceci, cor rosa da minha mãe. Quando íamos para a igreja meu pai chegava a levar, além lógico dele, mais 3 filhinhos. Minha mãe também levava a mesma quantidade. Às vezes precisavam fazer duas viagens. Eu gostava quando eles brincavam de corrida, era divertido demais naquelas tranquilas ruas do bairro Pacoval, de uma Macapá diferente desta. Mas um tio nosso que sempre comprava carros velhos, resolveu indicar a compra de um “carrão” ao meu pai, que de imediato começou a vender mais fotos, dobrou o trabalho para guardar o que tinha, e começou a "catar" todos as moedas para adquirir aquele que seria nosso primeiro carro. Nessa época eu consegui uma bolsa de estudos na escola de Inglês Fisk. Eu era o mais pobre da turma. Só tinha gente rica, fina e linda, e eu não me encaixava em nenhumas das três características. Nessa época eu era apaixonado por uma menina da minha turma inglês, mas claro que era uma paixão platônica, já que ela nunca soube. Vocês vão entender lá adiante porque estou explicando esse detalhe. 

Foto na Av Marcílio Dias com meu pai, irmãos, primos e amigos


Bem, voltando a compra do nosso “carrão”, me lembro que era uma manhã de sábado do mês de agosto, quando me acordei com uma euforia dentro da nossa humilde casa: “tá chegando, tá chegando, gritava minha irmãzinha Lene”. Eu perguntei: “Mas o que tá chegando?”, ao que meu outro irmão Gedielson disse: “o carro novo do papai”. Corremos ansiosos pra frente de casa. Lembro-me que cheguei a chamar meu amigo Max para vir ver conosco nosso carro que estava chegando. Isso aconteceu na Av Marcílio Dias no Laguinho entre as Ruas Odilardo Silva e Jovino Dinoá, e de longe eu vi aquela nuvem de fumaça e um barulho enorme: “pou-pou-pou-pá!”, era sempre essas notas que se repetiam invariavelmente quando aquele carro funcionava. Era o nosso carro que estava chegando: Um fusca branco, que em 1990 já tinha uns 25 anos, sem cintos de segurança, com os bancos com molas expostas, com o banco do motorista soldado em uma posição fixa, volante com uma folga gigantesca, sem freio, dentre outros detalhes assombrosos. 

Meu pai e meu irmão Gedielson e minha irmã Lene em frente a nossa casa no bairro do Laguinho


Lembro que precisávamos “bombear” várias vezes para que o freio começasse a responder. Interessante que nosso primeiro carro era tão velho que já veio com o mecânico, o Seu Pará (que não sei se ainda é vivo), um velho alegre, moreno, “zuador” e sempre coberto de graxa. Quando nosso carro estacionou em frente de casa eu coloquei as minhas duas mãos no ouvido, o barulho das aceleradas era ensurdecedor. O “Seu Pará” dizia que tinha de dar três grandes aceleradas antes de desligar o motor para carregar a bateria e garantir a partida quando fosse ligá-lo novamente. Em meio a muita fumaça, tosses, olhos vermelhos, nos abraçamos, porque agora tínhamos um carro, foi emocionante. Quando eu entrei no fusca pela primeira vez, reparei que quando passávamos em uma poça de água, respingava na minha perna no banco do carona, olhei debaixo do tapete e vi que tinha mais buracos que um queijo suíço. Mas tudo bem, pelo menos agora não vamos mais andar a pé. Tenho tantas histórias para contar desse nosso fusca velho que vou precisar de três artigos para contar a vocês tudo que vivemos dentro daquela “máquina” kkk. Continua no próximo artigo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

As graves falhas da Teoria da Evolução - Por Gesiel Oliveira

Charles Darwin

Um vídeo gravado em 2013, em contexto completamente distorcido, um ambiente cristão, é a nova ferramenta da Globo e da mídia tendenciosa para atacar a Ministra Damares Alves. No vídeo Damares critica a Teoria da Evolução de Charles Darwin. E agora os "especialistas da Globo" estão iniciando a "3ª Guerra Mundial". Mas basta verificar mais a fundo, que logo veremos os graves riscos que essa teoria representa, exatamente por causa da absoluta ausência de comprovação científica em diversos pontos. Por exemplo, a Teoria de Darwing não conseguiu explicar aquilo que ficou popularmente conhecido como "elo perdido", ou seja, simplesmente não há achados arqueológicos do momento da transição dos símios para os hominídeos. Simplesmente não existem! Há uma lacuna neste ponto, que comprova que sao espécies diferentes e não um resultado evolutivo um do outro. Outro aspecto que o evolucionismo não consegue explicar é: como o ser humano evoluiu tão rapidamente a partir de seres unicelulares até o complexo "homo sapiens" em menos de 5 milhões de anos? (data dos restos mais antigos do hominídeos encontrados denominado de Australoptecus). Ao passo que o Tubarão e o Crocodilo são espécimes que conviveram com os dinossauros, e que estão praticamente sem alterações evolutivas há mais de 240 milhões de anos? Para conhecer as principais falhas não comprovadas cientificamente na teoria da Evolução, clique neste link AQUI

Damares Alves gravou este vídeo em 2013 criticando a teoria da evolução que agora está sendo explorado pela imprensa.

Há diversos outros pontos em que a Teoria de Darwing é falha e inconclusiva para explicar a complexidade da vida. Crer na evolução viola a Segunda Lei Universal da Termodinâmica, a lei da dissipação da energia. A energia disponível para trabalho útil em um sistema funcional tende a dissipar-se, embora a energia total permaneça constante. Sistemas estruturados progridem de um estado mais ordenado e complexo para um menos ordenado, desorganizado e aleatório. Este processo é conhecido como “entropia”. Teoricamente em uma situação rara, limitada e temporária poderia acontecer no final um estado mais ordenado. Mas, de acordo com esta lei, todos os sistemas se movem rumo à deterioração. A evolução viola directamente a segunda lei da termodinâmica. Os evolucionistas estão conscientes disso e por esta razão precisam de bilhões de anos de violações frequentes da segunda lei da termodinâmica. Estatisticamente a evolução não é apenas altamente improvável, mas virtualmente impossível. Por isso essa teoria de Darwing não se sustenta. 

Por isso nos EUA e em diversos outros países essa teoria de Darwin caiu em descrédito, e o criacionismo vem sendo cada vez mais aceito, difundido e também ensinado nas escolas dos EUA. Preocupados com isso, milhares de cientistas de diversas áreas em todo o mundo têm se reunido constantemente para combater a Teoria Evolucionista de Darwin. Procurem ler mais sobre a TDI (Teoria do Design Inteligente) uma teoria que vem sendo amplamente aceita em diversos países, inclusive aqui no Brasil, e que postula a existência de um ser superior, um "Design extraterrestre" que tudo criou. Esta teoria está derrubando progressivamente, nos núcleos científicos, a teoria da evolução. 

Matéria sobre a TDI - Teoria do Design Inteligente 

Assim, se "teorias" não são leis imutáveis, e ainda merecem estudos científicos que a comprovem, por que não permitir um olhar mais amplo e também ensinar nas escolas a teoria da TDI, que também enfatiza o criacionismo ao invés de focar exclusivamente no evolucionismo ateísta e cético? É bem mais fácil acreditar na Bíblia, no que está descrito em Gênesis, que fazer um tremendo esforço mental para "engolir" que a tremenda complexidade da vida evoluiu de seres unicelulares, em tão pouco tempo, e o pior, sem nenhuma comprovação científica dessa continuidade evolutiva. Chega! Por isso os EUA, a nação mais desenvolvida do mundo, já ensinam nas escolas o criacionismo e o TDI para os seus filhos. Prefiro acreditar em Deus! 

Gesiel Oliveira é Geógrafo, bacharel em Direito, teólogo e escritor. Membro Vitalício da Academia de Letras Evangélica do AMAPÁ (ALEA), ocupando a cadeira de nº 19.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Uma história de amor que o Novo Amapá interrompeu - Por Gesiel Oliveira

38 anos do Naufrágio do Novo Amapá, o maior naufrágio da história do Brasil. 

Todo mundo já ouviu falar sobre a história do Naufrágio do Barco Novo Amapá, mas quase ninguém conhece as histórias que naufragaram junto com ele. Hoje quero compartilhar com vocês um pouco sobre uma destas tantas. A história de amor que aquele naufrágio levou junto. A história do casal Odivaldo Ferreira de Souza (mais conhecido como Tio Filho) e Célia Lúcia O. Monteiro, uma maranhense que a época residia em Beiradão, atual Vitória do Jari. 

Filho e sua esposa Célia

Ele trabalhava na empresa Jari Celulose, sexto filho de uma família de 9 irmãos, filhos da Dona Maria Lindalva Ferreira de Souza (hoje com 90 anos) e Seu Paulo Coutinho de Souza (87) que até hoje moram na Av Marcílio Dias no bairro do Laguinho. Eu tinha apenas 3 anos de idade a época do fato, e ainda tenho uma foto ao lado deste meu tio tão querido por todos . O Barco Novo Amapá partiu às 14h do dia 06/01/1981 rumo ao Vale do Jari. A tragédia aconteceu por volta das 20:00h daquele dia na altura da desembocadura do Rio Cajari. O Tio Filho, era um cidadão trabalhador, sempre com um sorriso nos lábios, sempre disposto a ajudar o próximo, era evangélico, gostava de pregar a Palavra de Deus, na época era já era obreiro da igreja. Onde ele chegava, trazia consigo uma alegria contagiante. Ele havia conseguido um emprego em uma empresa ligada a Jari Florestal. 

Estava de passagem em Macapá passando as festividades de final de ano com sua esposa, a Tia Célia, evangélica, que estava grávida de 6 meses. Filho trouxe a sua esposa para apresentar à sua família em Macapá. Foram dias de muita alegria. Eles estavam voltando do Maranhão, pois Filho acabara de conhecer a família de sua esposa. Um casal no auge do amor, felizes, “grávidos”, eles ainda não sabiam se seria um menino ou uma menina. Estavam retornando para sua casa em Beiradão para os preparativos para a chegada do bebê. 

O irmão mais velho de Filho, chamado de Orlando Ferreira de Souza, hoje com 59 anos, estava de viagem comprada para embarcar com eles. Ele nos conta que no dia anterior ficou sabendo, após um exame, que estava com malária, e em cima da hora desistiu da viagem. Ele conta que o mesmo táxi que o levou até a casa de sua mãe (onde estava o irmão dele, Sr Filho) foi o mesmo táxi que seguiu viagem e levou Filho e sua esposa grávida até o porto do Santana. No período em que o Tio Filho esteve aqui tiramos alguns poucas fotos que nossa família guarda como relíquias, pois registraram os últimos momentos dele em vida. Aquela noite do dia 06/01/1981 nunca acabou para as famílias das vítimas e hoje completa 38 anos daquele fatídico dia. Com a desistência de Orlando Ferreira, sua irmã mais nova, Maria do Socorro Ferreira, que hoje mora no bairro Novo Horizonte, também desistiu de embarcar. O destino já havia traçado sua rota. A embarcação feita para comportar 250 pessoas estava com cerca de 600. Alguns especialistas afirmam que o peso excessivo causou um desequilíbrio estrutural no controle de flutuação da embarcação. Na altura do Rio Cajari, a cerca de um terço da viagem, por motivos até hoje controversos e desconhecidos, a embarcação emborcou, virou nas águas do Rio Amazonas, em uma noite muito escura. 

O desespero tomou conta das centenas de pessoas a bordo. Gritos, pessoas presas nos camarotes, a embarcação virou com sua quilha para cima formando um bolsão de ar que sustentava o barco virado, mas dentro do bolsão de ar muitos pessoas batiam pedindo socorro. Algumas pessoas nadaram para dentro do rio, achando que estavam nadando para a beirada e morreram de exaustão nadando. 

O livro “Morte sobre as águas: A tragédia do Cajari” o autor João Capiberibe relata que: “A notícia chegou a Macapá no fim da tarde do dia 07 de janeiro de 1981. O barco Novo Amapá que deixara Porto de Santana no dia 06/01/1981 (terça-feira), naufragara nas imediações da foz do Rio Cajari após 6 horas de viagem. As primeiras informações trazidas por dois sobreviventes, davam como certa a morte de 23 das 146 pessoas que o despachante Osvaldo Nazaré Colares informara à Capitania dos Portos do Amapá. No dia seguinte (quarta feira) porém, a verdadeira extensão da tragédia delineou-se aos olhos da população de Macapá. Das mais de 600 pessoas que, na verdade, viajam no barco sinistrado, apenas metade, sobrevivera ao acidente”. 

Na página 35 do livro o relato de um sobrevivente, Sr José Maria da Silva, empregado da EMPRAL, empreiteira Jari, descreve o momento do desespero: “as mães que estavam morrendo afogadas pediam socorro! pelo amor de Deus, que as ajudassem, mas todos gritavam ao mesmo tempo”. 

Entre dezenas de relatos de sobreviventes, há um que descreve a calma de uma mulher grávida que morreu abraçada com seu marido. Pergunto-me até hoje se seriam os meus tios. Quem os conhecia sabia que seria impossível outro desfecho. Cada barco que chegava com os sobreviventes, nos dias que se seguiram, era um desespero dos familiares na beirada do porto de Santana. 

Gritos de felicidade se misturavam a gritos de desesperos. No domingo chegaram as duas balsas últimas com todos os corpos em decomposição. Acabara ali as esperanças da minha família em encontrar meus tios com vida. Uma nuvem de urubus de longe se avistava. Uma cena aterrorizante que até hoje atormenta muitas famílias. 

Era impossível reconhecer os corpos que foram enterrados em valas coletivas no cemitério de Santana. A irresponsabilidade que até hoje nunca teve um desfecho, interrompeu muitas histórias, inclusive a história de amor dos meus tios. Tia Célia teria a criança em maio, no mesmo mês que nasceu minha irmã Gilcilene de Souza Oliveira. Mas essa história foi interrompida, sonhos, projetos, uma família inteira deixou de existir e junto nas águas turvas do Rio Amazonas levou uma parte da nossa felicidade também. Hoje, quem sabe, ele seria um pastor, quem sabe hoje minha prima teria uma família, e meus tios teriam a felicidade de serem avós, mas nunca tiveram essa chance. Hoje só resta um quadro em preto e branco na parede da casa da vovó e muita saudade daquele casal apaixonado. 

Memória no cemitério em Santana registra o nome das 332 vítimas

Nossa família não teve a oportunidade sequer de dar um enterro digno a eles, hoje não temos um lugar exato para irmos no dia dos finados, a não ser uma vala coletiva. Mas o que me conforta é imaginar que eles passaram para a outra vida abraçados, na firmeza do verdadeiro amor que os unia. Juntos, sempre juntos para toda eternidade! Por isso sempre digo que muita gente conhece a história do Novo Amapá, mas não conhece as histórias que naufragaram com ele.

Gesiel Oliveira - Membro Vitalício  da Academia de Letras Evangélica do Amapá, ocupando a cadeira de nº 19.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Você sabe o que é o "politicamente correto"? - Por Gesiel Oliveira

O politicamente correto como ferramenta de controle da esquerda da liberdade de expressão - Por Gesiel Oliveira. 

O adjetivo 'politicamente correto' é um neologismo bastante usado hodiernamente para descrever linguagens ou ações que devem ser evitadas por serem vistas socialmente como 'excludentes' ou 'ofensivas'. Em tese, o politicamente correto defende a censura de idéias que marginalizam ou insultam grupos de pessoas tidos como desfavorecidos ou discriminados, especialmente grupos definidos por gênero, raça ou preferências sexuais, mas isso é apenas o pretexto para criar uma política de freios e contenção a liberdade de expressão. No entanto, ao defender a censura de idéias consideradas "ofensivas", o politicamente correto nada mais é do que uma ferramenta criada para intimidar e restringir a liberdade de expressão especialmente por governos de viés esquerdista. 

Ao proibir a livre manifestação de idéias a respeito de uma miríade de assuntos, o politicamente correto funciona como uma linha de montagem mecanizada, cujo objetivo é padronizar e homogeneizar as ideias dos indivíduos, fazendo-os pensar e agir sempre de modo uniforme, e por outro lado “satanizando” quem discorda desse pensamento tido como socialmente aceitável e palatável. Assim discordar da ideologia de gênero é politicamente incorreto, mesmo que seu filho tenha uma base cristã. Não apoiar o movimento de preservação ambiental integral é politicamente incorreto, mesmo que para isso o Município de Laranjal do Jari com sua população pobre não possa usar 95% de suas terras ricas em minerio, solo e vegetação que permanecem integralmente protegidas e intocáveis por lei ambientais formuladas em salas refrigeradas em Brasília com assessoria de ONG's ambientalistas. Para o politicamente correto, um debate aberto e sem censura, além de ofensivo para as minorias, é também subversivo, reacionário, inflamatório e gerador de discórdias, devendo por isso ser censurado. 

A bola da vez são os evangélicos que logo são rotulados de fanáticos, radicais e ridículos por seus expressarem suas convicções ideológicas, filosóficas e religiosas. Mas isso atenta contra a lógica básica. Contraria a própria liberdade constitucional de expressão. A ideia do politicamente correto surgiu nas academias, antes de vir para as ruas. O debate aberto é algo que, por definição, estimula a análise crítica e impede a uniformidade (e a hegemonia) intelectual. Interessante observar que 85% do Brasil é Cristão, mas em termos ideológicos uma minoria, que arvorou para si ditar o rumo do pensamento das massas, direcionou ao longo de anos um estereótipo cognitivo carregado de marxismo ideológico que favorece, mais que isso, enaltece e coloca em um patamar superior certas minorias. 

Quebrar com a visão do “politicamente correto” não é favorecer o preconceito ou exclusão, é simplesmente passar a ver as cosias como elas são, sem a capa distorcida e academicamente forjada do que se deve a todo custo evitar para não paracer socialmente inadequado. A ideia principal é exatamente ridicularizar e aviltar quem fuja do padrão. O debate aberto e sem censura evita a predominância do chamado "pensamento de manada", garantindo assim uma voz exatamente para os grupos mais marginalizados e excluídos — os quais, em tese, são o alvo da preocupação do politicamente correto. Se o indivíduo não mais tiver a liberdade de falar o que pensa, ele não mais será capaz de pensar. Como bem disse o psicólogo Jordan Peterson, a liberdade de expressão é suprema e está acima do "direito" de alguém de não se sentir ofendido. Com efeito, não há na nossa constituição o "direito de não se sentir ofendido" simplesmente porque isso, caso realmente fosse impingido, levaria à extinção do próprio pensamento: o ser humano, por ser capaz de pensar, sempre poderá soar ofensivo a alguém. 

Querer proibir a expressão do pensamento significa proibir o próprio ato de pensar. O politicamente correto acaba criando uma espécie de noção tresloucada decriminalização de pensamento. Mas não existe no Brasil o chamado “delito de opinião”, vulgarmente, como viés do pensamento democrático, que seria atribuir ao verbo, falado ou escrito, um ato digno de punição, exatamente por conta da liberdade de expressão. No final, o que temos hoje é apenas uma defesa simétrica da liberdade de expressão: só é lícito aquilo que me agrada. Aquilo que me ofende deve ser proibido, essa ideia de criar um Maniqueísmo ideológico coloca o politicamente correto em uma bolha de proteção intelectual intocável. Só que defender a liberdade de expressão de minhas idéias não é mérito nenhum. Tampouco representa qualquer utilidade social. 

O verdadeiro mérito está em defender a liberdade de expressão daqueles que nos ofendem profundamente, e então vencê-los no debate por meio da razão. A censura prévia é simplesmente o método a que recorrem os intelectualmente incapazes. No geral, se você é de esquerda e defende censura e punição àquilo que você considera "discurso de ódio da direita", você está apenas defendendo o privilégio da sua seita de abolir a expressão das idéias alheias. E vice-versa. A universalidade da liberdade de expressão não existe para proteger aquilo que nos agrada, mas sim para proteger da censura aquilo que nos ofende. Caso cedamos ao encanto de censurar aquilo que nos desagrada, em vez de criarmos uma plataforma que estimule o desenvolvimento do indivíduo por meio do raciocínio lógico, do questionamento e dos diálogos estimulantes, estaremos apenas criando robôs com pensamentos padronizados e homogeneizados. Abrir a Caixa de Pandora da censura pode acabar estimulando outros grupos a fazerem exatamente o mesmo, acabando assim com a liberdade geral de expressão e com toda a nossa capacidade de debate baseado na razão. Com efeito, estaremos atacando a nossa própria capacidade de raciocínio. Não há mágica: o livre intercâmbio de informações e idéias é crucial para o progresso de uma sociedade livre. Por isso, toda a forma de "polícia do pensamento" deve ser abolida. 

Por fim, um teste: alguns países europeus fortemente influenciados pelo globalismo da ONU, como a Alemanha, Bélgica, Holanda e outros, transformaram em crime o "discurso de ódio" (hate speech) que se aplica inclusive na internet. Na prática, as mídias sociais (Google, Facebook, WhatsApp e Twitter) serão severamente multadas caso permitam que seus usuários façam "discursos de ódio" em suas plataformas. Mas o conceito é amplo e deixa a cargo de quem essa análise do que é e do que não é discurso de odeio? Por uma questão de lógica inversa, isso também implica que agora é ilegal odiar Hitler, Stalin, Mussolini e o Holocausto na internet. Mas o ódio aos símbolos do cristianismo estimulados em livros satanista de Marx como “Oulanem” são socialmente aceitos nos círculos acadêmicos sem que isso caracterize discurso de ódio. Também significa que o marxismo — que fomenta o ódio dos assalariados aos capitalistas, estimulando o assassinato de capitalistas, e que na prática já matou mais de 100 milhões de seres no nosso planeta— deveria se tornar ilegal. Você acha isso correto? Você apóia o politicamente coreto?