Messias: de reprovado ao STF a Ministro da Justiça comandando a PF para investigar o escândalo do Banco Master
Há momentos na política brasileira que merecem ser examinados não apenas pelo que revelam no presente, mas pelo que anunciam para o futuro. A reprovação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, ocorrida após 132 anos sem que o Senado Federal exercesse essa prerrogativa constitucional, é um desses momentos. Mas enganam-se aqueles que veem neste episódio uma vitória da independência institucional ou um despertar republicano da Casa Legislativa. O que testemunhamos foi, na verdade, um capítulo brutal da mais crua disputa de poder nos bastidores de Brasília, onde princípios constitucionais são apenas peças de um tabuleiro onde se joga não pela República, mas por influência, cargos e controle.
A rejeição de Messias não aconteceu porque os senadores subitamente descobriram seu papel de fiscalizadores das indicações presidenciais. Não foi porque reconheceram a impropriedade de alçar ao STF alguém que, meses antes, atuava como advogado-geral da União defendendo o governo que agora o indicava. A reprovação aconteceu porque, nos corredores do poder, travou-se uma batalha feroz entre facções políticas, e Messias acabou sendo a baixa colateral de uma guerra que tem outros protagonistas, outros interesses e, sobretudo, outros objetivos.
O homem mais poderoso do brasil é amapaense
Para compreender o que realmente aconteceu, é preciso entender o papel central de Davi Alcolumbre nesta trama. O senador do Amapá não é apenas mais um parlamentar entre 81. Alcolumbre é, na prática, o homem mais poderoso do Brasil, pois quem tem poder de conduzir o impeachment de ministros do STF, hoje é quem concentra mais poder no Brasil.
Ex-presidente da Casa entre 2019 e 2021, Alcolumbre construiu ao longo dos anos uma rede de influência formidável. Controla votações, articula acordos, distribui relatorias estratégicas e, não raro, decide sozinho o destino de projetos, emendas e, como vimos agora, até de indicações para o Supremo. Seu poder não vem apenas de habilidade política, vem também do controle sobre fluxos financeiros, da capacidade de viabilizar ou inviabilizar carreiras políticas e de uma compreensão aguda sobre como funcionam as engrenagens do poder.
Quando Lula indicou Jorge Messias para o STF, Alcolumbre deixou claro, nos bastidores, que não apoiaria o nome. A preferência do senador era outra: Rodrigo Pacheco, seu aliado político e figura com quem Alcolumbre mantém estreita relação de poder.
Pacheco no STF: trocando seis por meia dúzia
A ironia amarga deste episódio está justamente aqui: Alcolumbre articulou a derrubada de Messias não porque o considerasse inadequado para o STF, não porque ele apoiou a assistolia fetal ou porque perseguiu pessoas ligadas ao campo da direita, mas porque simplesmente Davi queria outro nome no lugar, alguém mais ligado a ele. E esse outro nome, Rodrigo Pacheco, representa na prática tudo aquilo que os críticos apontavam em Messias, e tenha certeza, concentrando até mais aspectos negativos.
Pacheco, como ex-presidente do Senado, tem posição política ainda mais evidente do que Messias tinha como AGU. Já se posicionou publicamente sobre temas sensíveis e controversos, negociou diretamente com o Executivo em questões legislativas estratégicas e construiu sua carreira política em estreita conexão com grupos de interesse econômico e político. Sua indicação ao STF em meio a esse mar revolto político, seria tão problemática quanto a de Messias no que diz respeito à aparência de imparcialidade, ou até mais, considerando que o presidente do Senado sabatina e aprova indicações ao Supremo, criando um conflito de interesse evidente.
Mas para Alcolumbre, essa questão era irrelevante. O que importava era a jogada política: Messias fora, Pacheco dentro, Senado sob controle novamente. É a política brasileira em sua face mais crua, onde instituições são instrumentos de poder pessoal, onde cargos públicos são moedas de troca e onde a Constituição é citada apenas quando convém.
A articulação funcionou. Messias foi rejeitado por 42 votos contra 34, uma derrota contundente e histórica, que pegou o Planalto de surpresa. Lula, acostumado a negociar e ceder, mas também habituado a ter suas indicações para o STF aprovadas sem maiores sobressaltos, viu-se derrotado numa votação que, sob a ótica estritamente política, e em ano eleitoral, representou uma humilhação pública.
A ruptura: Quando aliados viram inimigos
A consequência imediata da derrota foi o rompimento entre Lula e Alcolumbre. O presidente, que mantinha relação pragmática com o senador amapaense, interpretou a articulação como traição política. Afinal, Alcolumbre não apenas rejeitou Messias, ele o fez de forma ostensiva, coordenando votos, pressionando senadores da base governista e, em última instância, demonstrando que o governo não controla sequer seus próprios aliados no Legislativo.
Em Brasília, onde alianças são voláteis e lealdades têm preço, este tipo de ruptura nunca é apenas pessoal. É estratégica. E quando uma ruptura política alcança esse patamar, especialmente envolvendo o presidente da República e um dos principais articuladores do Senado, as consequências tendem a ser devastadoras para ambos os lados. Lula, conhecido por sua capacidade de articulação e por nunca esquecer desafetos, começou imediatamente a traçar uma estratégia maquiavélica de contra-ataque. E aqui entra o segundo ato dessa peça: a possível indicação de Jorge Messias para o Ministério da Justiça.
O Ministério da Justiça: Muito mais que uma consolação, uma arma de contra-ataque
À primeira vista, nomear Messias para a Justiça após sua rejeição no STF poderia parecer um prêmio de consolação, uma forma de Lula acomodar politicamente um aliado derrotado. Mas quem pensa assim não entende a real extensão do poder que este ministério concentra.
O Ministério da Justiça não é apenas mais uma pasta do Executivo. É o órgão que supervisiona a Polícia Federal, a instituição de investigação criminal mais poderosa do país. É a pasta que controla a Secretaria Nacional do Consumidor, o sistema penitenciário federal, políticas de segurança pública e, crucialmente, a articulação com o Poder Judiciário em questões criminais.
Colocar Jorge Messias à frente da Justiça não seria, portanto, uma aposentadoria política. Seria armá-lo com instrumentos poderosos de poder investigativo e punitivo. Seria dar a um homem politicamente derrotado, e presumivelmente ressentido, acesso direto aos mecanismos que podem abrir investigações, direcionar recursos da PF e, em última instância, expor adversários políticos e promover uma desgaste sem precedentes.
E aqui a narrativa de Brasília ganha contornos quase maquiavélicos: o derrotado que retorna armado, não para reconquistar o posto perdido, mas para destruir aqueles que o derrotaram.
As bombas-relógio: Banco Master e AMPREV
Circulam em Brasília, e aqui é necessário deixar claro que se trata de informações que correm nos bastidores do poder, e que foram expostas pela jornalista Malu Gaspar, rumores sobre duas frentes investigativas que poderiam ser explosivas se levadas adiante por uma Polícia Federal sob comando indireto de Messias.
A primeira envolve o caso Banco Master, complexo escândalo de lavagem de dinheiro e movimentações financeiras suspeitas que já levou a múltiplas investigações. Segundo fontes desta jornalista, haveria conexões ainda não totalmente esclarecidas entre pessoas ligadas ao caso e familiares de autoridades de primeiro escalão, incluindo, ligações com a família do ministro Alexandre de Moraes. Mas em Brasília, previsões de experientes analistas têm um forte poder, especialmente quando quem pode transformá-las em investigações formais tem acesso ao comando da Polícia Federal.
A segunda frente envolve a AMPREV, Amapá Previdência, e supostos desvios de aproximadamente R$ 400 milhões de fundos previdenciários no Amapá em investimentos junto ao Banco Master. Novamente, circulam versões sobre conexões entre gestores desses recursos e aliados políticos de Davi Alcolumbre. Se essas conexões realmente existem e se houve irregularidades são questões que apenas investigações sérias poderiam responder. Mas a mera possibilidade de que tais investigações sejam abertas já funciona como arma política poderosa.
O xadrez da destruição mútua
O que se desenha, portanto, é um cenário de potencial destruição mútua. De um lado, Alcolumbre e seus aliados, incluindo possivelmente setores do próprio STF, que derrotaram Messias e agora podem se ver sob a mira de investigações conduzidas pela PF sob supervisão desse mesmo Messias. De outro, Lula e seu núcleo político, dispostos a usar todos os instrumentos do Estado para punir a traição e reconquistar espaço de poder no Senado.
Alexandre de Moraes, ministro do STF e figura central no sistema político-judicial brasileiro dos últimos anos, encontra-se numa posição particularmente delicada. Se por um lado é quem conduz o famoso "Inquérito das Fake News" e outros processos sensíveis, por outro pode ver sua própria esfera pessoal e familiar sendo investigada, ainda que baseada em rumores ou acusações infundadas, como retaliação política.
Esta dinâmica não é nova na política brasileira. O uso de investigações criminais como arma política, a instrumentalização da Polícia Federal para atingir adversários, a abertura de inquéritos baseados mais em conveniência do que em evidências, tudo isso já vimos antes. O que torna este momento particularmente preocupante é a escalada do conflito e o nível das autoridades envolvidas.
A reprovação de Messias não representou uma vitória institucional do Senado. Representou a captura desse processo por interesses particulares de um grupo político específico. A possível indicação de Messias para a Justiça não representa governabilidade responsável, mas potencial uso político-partidário de instrumentos investigativos do Estado.
O conservadorismo verdadeiro defende instituições fortes, não homens fortes. Defende processos transparentes, não acordos de bastidor. Defende a separação entre investigação criminal (que deve ser técnica e isenta) e política (que é por natureza partidária e interessada). O que vemos em Brasília é exatamente o oposto: instituições fracas capturadas por homens que concentram poder desmedido, processos opacos decididos em conchavos secretos e a completa fusão entre investigação criminal e disputa política.
As vítimas invisíveis
Enquanto Alcolumbre, Lula, Messias e Moraes jogam seu xadrez de poder, quem paga a conta é o cidadão comum. É o brasileiro que precisa de uma Polícia Federal focada em combater crime organizado, tráfico de drogas, corrupção real, não em servir como braço armado de disputas políticas entre elites brasilienses.
É o contribuinte que sustenta um Senado Federal com orçamento bilionário, esperando que seus senadores exerçam suas funções constitucionais com seriedade e independência, não que transformem sabatinas em leilões de poder.
É a sociedade inteira que precisa acreditar que o Supremo Tribunal Federal é composto por juristas imparciais dedicados à Constituição, não por peças de um tabuleiro onde se joga pelo controle do Estado.
A reprovação de Messias após 132 anos sem que isso ocorresse deveria ser celebrada como resgate do papel fiscalizador do Senado. Mas como celebrar quando sabemos que a rejeição não veio de consciência institucional, mas de disputa pelo controle de cargos? Como confiar no processo quando sabemos que o nome alternativo proposto (Pacheco) seria igualmente problemático, senão mais?
A podridão sistêmica
Este episódio expõe uma verdade incômoda sobre a política brasileira contemporânea: a podridão não está em um partido, em um governo ou em uma pessoa específica. Está no sistema como um todo, capturado por uma elite política que vê instituições como instrumentos de poder pessoal, que usa cargos públicos como moeda de troca e que não hesita em transformar investigações criminais em armas contra adversários.
Lula, Alcolumbre, Messias, Moraes, Pacheco, todos são produtos e perpetuadores desse sistema. Podem ocupar posições diferentes no espectro ideológico, podem defender bandeiras distintas no discurso público, mas na prática política concreta, jogam o mesmo jogo pelas mesmas regras: acúmulo de poder, destruição de adversários, uso instrumental do Estado.
A vingança de Messias, se vier, não será triunfo da justiça. Será apenas mais um capítulo da guerra de todos contra todos que Brasília se tornou. E nessa guerra, não haverá vencedores, apenas um país cada vez mais refém de elites que se digladiam pelo poder enquanto a Nação agoniza.
O Brasil merece mais. Merece um Senado que fiscalize de verdade, não que sirva a interesses paroquiais de seus membros. Merece um Ministério da Justiça que combata crime, não que persiga adversários políticos. Merece um STF que interprete a Constituição, não que seja prêmio para aliados do governo. Enquanto não tivermos isso, episódios como a reprovação histórica de Messias continuarão sendo não marcos de fortalecimento institucional, mas sintomas de uma democracia gravemente enferma.

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