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Trump classifica PCC e CV como organizações terroristas e Lula reage



Há decisões políticas que funcionam como espelhos incômodos, forçando governos a se enxergar como o mundo realmente os vê, não como gostariam de ser vistos. A decisão do presidente Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais é exatamente esse tipo de espelho. E o reflexo que ele mostra ao governo Lula é profundamente constrangedor não apenas no plano interno, mas principalmente no internacional.

A declaração foi recebida em Brasília com aquela mistura característica de arrogância ferida e indignação performática que o PT domina como nenhum outro partido. Lula, em evento da Petrobrás em Sergipe, disse nesta sexta-feira (29) que “estou triste” porque disseram “que nossos criminosos são terroristas”. Foi assim que ele reagiu a uma decisão geopolítica de enorme peso e que visa o combate a um dos problemas mais graves que o Brasil enfrenta atualmente em um cenário onde 26% da população brasileira vive em espaços dominados e oprimidos por facções. A escolha da palavra não foi acidental, foi reveladora. Lula não estava apenas "triste" com a decisão; estava expondo seu lado nessa guerra.

O que significa classificar uma organização como terrorista

Antes de analisar as implicações políticas, é fundamental entender o peso técnico e jurídico desta classificação. Quando o governo americano designa uma organização como Foreign Terrorist Organization (FTO), organização terrorista estrangeira, as consequências são imediatas e profundas.

Primeiro, qualquer pessoa ou entidade americana que forneça suporte material a essas organizações pode ser criminalmente processada nos Estados Unidos, independentemente de onde esteja no mundo. Segundo, membros dessas organizações ficam proibidos de entrar em território americano e têm quaisquer ativos nos EUA imediatamente congelados. Terceiro, instituições financeiras americanas e, por extensão, qualquer banco que opere no sistema financeiro americano, o que inclui praticamente todos os grandes bancos do mundo, são obrigadas a bloquear transações relacionadas a essas organizações.

Na prática, isso significa que PCC e CV passam a ser tratados, do ponto de vista americano, no mesmo nível que Al-Qaeda, ISIS e Hezbollah. Não é retórica política, é classificação jurídica com consequências operacionais reais e imediatas no sistema financeiro internacional.



A visita de Flávio Bolsonaro e o timing revelador

A decisão de Trump não veio do nada. Ela foi anunciada em um contexto político específico que merece atenção: três dias após a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca, onde o filho do ex-presidente e candidato à presidência da república, teve reuniões com assessores da administração americana e, segundo fontes próximas, transmitiu informações detalhadas sobre a penetração do crime organizado brasileiro em estruturas políticas e institucionais do país.

O timing é eloquente e tem repercussões diretas no contexto eleitoral que se aproxima. A oposição brasileira, através de Flávio Bolsonaro, abre um canal de comunicação direta com Washington e apresenta um dossiê sobre a gravíssima situação do crime organizado no Brasil. Semanas depois, Trump classifica PCC e CV como organizações terroristas. Coincidência? Em política internacional, coincidências desta magnitude não existem, o que existe é estratégia.

Esta sequência de eventos revela algo importante sobre o estado das relações Brasil-EUA: a oposição brasileira tem mais crédito em Washington do que o governo oficial. Enquanto o Planalto envia ministros que chegam à Casa Branca e são recebidos com frieza protocolar, os Bolsonaro chegam e saem com resultados concretos e altamente estratégicos. Esta assimetria diplomática é devastadora para a imagem de Lula no cenário internacional.



Lula "triste": estou triste” porque disseram “que nossos criminosos são terroristas

A reação de Lula à decisão americana foi, diplomaticamente falando, um desastre. Dizer-se "triste" com Trump e Rubio em evento público da Petrobrás em Sergipe, não é apenas uma gafe de linguagem, é uma demonstração de vulnerabilidade que adversários internos e externos imediatamente irão explorar.

Um presidente que reage desta forma a uma decisão de política externa de seu principal parceiro comercial demonstra que não possui instrumentos diplomáticos eficazes para influenciar ou contestar a decisão. Demonstra que a relação bilateral está tão deteriorada que o Brasil não foi sequer consultado ou previamente informado. Demonstra, acima de tudo, que o governo brasileiro perdeu o fio da comunicação com Washington, se é que algum dia, neste mandato, teve tal fio.

A escolha do Nordeste como palco desta declaração também não foi inocente. Falar para uma plateia nordestina sobre estar "triste" com o governo americano é política doméstica disfarçada de diplomacia, uma apelação ao sentimento antiamericano latente em certos setores da base petista, numa tentativa de transformar derrota diplomática em vitória narrativa. O discurso da “soberania” tem sido explorada por Lula como uma “muleta” para se encostar diante de tamanho desastre diplomático. Mas essa estratégia tem prazo de validade curto, especialmente quando as consequências práticas da designação terrorista começarem a se fazer sentir.


As consequências práticas: O que os EUA podem fazer a partir de agora

A classificação de PCC e CV como organizações terroristas abre um leque de possibilidades operacionais para os Estados Unidos que deve preocupar seriamente o governo brasileiro.

Primeiro, a DEA (Drug Enforcement Administration) e o FBI podem agora conduzir operações mais agressivas contra membros dessas organizações que transitem por países aliados dos EUA, podendo solicitar extradições com base em legislação antiterrorismo, que é significativamente mais ampla e poderosa do que a legislação antidrogas convencional.

Segundo, o Departamento do Tesouro americano pode aplicar sanções econômicas (OFAC sanctions) contra empresas, indivíduos, políticos, entidades e até instituições financeiras que comprovadamente tenham relações com PCC ou CV. Isso pode incluir empresas brasileiras que operem em setores onde essas organizações tenham infiltração, construção civil, transportes, lavagem de capitais, agronegócio em certas regiões.

Terceiro, e talvez mais impactante, os EUA podem pressionar o sistema financeiro internacional para que adote medidas similares. Se o FATF (Financial Action Task Force), organismo internacional de combate à lavagem de dinheiro, seguir a designação americana e classificar o Brasil como país com risco elevado de financiamento ao terrorismo, as consequências para a economia brasileira seriam severas: aumento do custo de transações internacionais, dificuldade de acesso a crédito externo e, potencialmente, restrições às exportações.

O impacto eleitoral: Uma bomba de efeito retardado

Em ano eleitoral, a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas pelos EUA tem impacto que vai muito além da diplomacia. Ela se insere diretamente no debate político interno de uma forma que o governo Lula não consegue controlar.

A oposição agora tem um argumento poderosíssimo e de fonte incontestável: o maior poder do mundo enxerga o Brasil como um país onde organizações terroristas operam livremente e sem controle. Não é retórica de campanha ou acusação partidária, é posicionamento oficial do governo americano, respaldado por décadas de inteligência e investigação.

Para o eleitor médio, aquele que não acompanha debates ideológicos sobre soberania nacional ou relações internacionais, mas que sente no cotidiano o terror do crime organizado, esta notícia tem um peso específico. É a confirmação, vinda de fora, de algo que ele já sabia por experiência própria: o PCC e o CV não são apenas facções criminosas locais. São organizações com ramificações internacionais, poder econômico comparável ao de países pequenos e capacidade de corrupção que permeia todos os níveis institucionais.

Pesquisas recentes apontam que a segurança pública é uma das principais preocupações do eleitorado brasileiro, frequentemente disputando a primeira posição com economia e saúde. Um governo que se mostra "chateado" com a designação terrorista de organizações que massacram cidadãos brasileiros cotidianamente está, na prática, posicionando-se do lado errado desta questão aos olhos do eleitor.

PT e crime organizado: A narrativa que o governo mais teme

A designação americana ressuscita, com força renovada, um debate que o PT sempre tentou encerrar na base da indignação moral: as conexões, diretas ou indiretas, entre o partido e organizações criminosas.

Não se trata de acusar o PT de ser uma organização criminosa ou de ter controle sobre o PCC ou CV. Trata-se de reconhecer que, em regiões onde essas organizações são hegemônicas, políticos precisam, de alguma forma, coexistir com elas, e que essa coexistência raramente é neutra. Em eleições em comunidades dominadas pelo crime organizado, candidatos não chegam às pessoas sem algum tipo de acomodação com quem controla o território.


Este é um problema que afeta todos os partidos brasileiros com presença em periferias urbanas, mas afeta o PT de forma particular, dado que o partido construiu sua base eleitoral historicamente nestas comunidades e governa há anos estados onde PCC e CV são mais poderosos. A responsabilidade pela contenção dessas organizações, ou pela omissão em contê-las, recai inevitavelmente sobre quem governa.

Quando os EUA classificam essas organizações como terroristas, implicitamente estão também questionando: como é possível que organizações desta magnitude operem há décadas no Brasil sem que o Estado consiga efetivamente desarticulá-las? A resposta honesta é perturbadora e aponta para cumplicidades institucionais que transcendem partidos, mas que, neste momento político específico, recaem sobre o governo que está no poder.



O cenário internacional: Brasil isolado

A relação Brasil-EUA sob o governo Lula é a pior em décadas. As demonstrações públicas de afeto de Lula a regimes autoritários, Venezuela de Maduro, Cuba, Nicarágua, Rússia de Putin no início do conflito ucraniano, somadas à frieza com que tratou Washington, criaram um déficit de confiança que agora cobra seu preço.

A designação terrorista de PCC e CV sem consulta prévia ao governo brasileiro não é apenas uma questão de protocolo diplomático ignorado, é um sinal de que Washington não considera Brasília um parceiro confiável no combate ao crime organizado internacional. É o equivalente diplomático de dizer: "Vocês não estão fazendo seu trabalho, então faremos o nosso sem perguntar".

Este isolamento tem consequências em múltiplas frentes. Na OEA (Organização dos Estados Americanos), o Brasil perde capacidade de articulação. No G20, onde Lula tanto celebrou sua presidência recente, a percepção do Brasil como país com risco de financiamento ao terrorismo compromete a credibilidade duramente conquistada. No Mercosul, a designação americana pode pressionar parceiros como Argentina de Milei, muito mais alinhado com Washington, a adotar posições que constrangem o Brasil.


A segurança não é negociável

A decisão americana é não apenas compreensível, mas bem-vinda. O combate ao crime organizado deve ser implacável e que organizações que financiam o terror merecem resposta à altura da ameaça que representam. O PCC fatura, segundo estimativas do Ministério da Justiça brasileiro, entre R$ 2 bilhões e R$ 10 bilhões por ano com tráfico de drogas, extorsão, lavagem de dinheiro e outros crimes. O CV, concentrado no Rio de Janeiro mas com ramificações nacionais e internacionais, movimenta cifras similares. Essas organizações empregam mais pessoas do que muitas empresas do Fortune 500, possuem hierarquias complexas, sistemas de comunicação sofisticados e capacidade militar que supera a de muitas forças policiais estaduais.

Tratar essas organizações como simples problemas de segurança pública local sempre foi um erro estratégico. Elas são, de fato, organizações criminosas transnacionais com características que se aproximam das definições internacionais de terrorismo: uso sistemático da violência para criar terror nas populações, capacidade de influenciar e corromper instituições estatais, financiamento de atividades políticas e uso de territórios como zonas de exclusão do Estado.


O espelho que Lula se nega a olhar

A decisão de Trump é, para Lula, o pior tipo de problema político: aquele que vem de fora, que não pode ser controlado pela narrativa doméstica, nem influenciado pela mídia chapa-branca comprada, e que explicita fragilidades que o governo preferia manter obscuras.

Lula pode continuar fazendo seus discursos com plateia controlada sobre “soberania nacional” e “não interferência em assuntos internos”. Pode tentar transformar a reação americana em oportunidade de mobilização do seu eleitorado. Mas nada disso mudará o fato central: as duas maiores organizações criminosas do Brasil agora são oficialmente classificadas como terroristas pelo governo americano, e Lula não teve nenhuma capacidade de impedir, antecipar ou mesmo ser previamente informado sobre esta decisão.

Em ano eleitoral, isso não é apenas uma derrota diplomática. É uma narrativa poderosa nas mãos da oposição: um governo que não tem credibilidade junto ao maior parceiro estratégico do hemisfério, que perdeu o diálogo com Washington enquanto a oposição ganha audiências na Casa Branca, e que reage com "tristeza" quando o mundo finalmente chama pelo nome o terrorismo que assola os brasileiros comuns.

O espelho americano mostrou um reflexo que o Planalto preferia não ver. E em eleições, eleitorados enxergam reflexos com clareza que nenhum marqueteiro consegue distorcer.


Gesiel Oliveira, Professor Especialista em Direito Constitucional, Especialista em Geopolítica Mundial, Colunista, Escritor, Palestrante e Analista Político.


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