terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Crônicas de uma missão em uma tribo indígena (Por Pr Gesiel Oliveira)

Quero compartilhar com vocês uma experiência que tive em uma recente viagem missionária a uma tribo indígena. Era o dia das crianças. Embarcamos no aeroporto de Macapá, eu um médico missionário coreano chamado de Miguel Yon, um pastor líder do departamento de missões e o piloto que também é pastor. Fomos em um monomotor até a tribo indígena xuxumeni, na fronteira do Pará com Suriname. Uma tribo isolada no meio da Amazônia. Essa tribo foi descoberta há pouco o mais de 20anos. Eles viviam isolados. Não há acesso por rio (pois o lugar é cheio de cachoeiras), nem por estrada, etc, só de aeronave, um monomotor que nos levou até lá. Os próprios índios construíram uma pista improvisada de 450 metros. A cabeça da pista começa em uma montanha e o fim termina em um rio. Ou seja, se o avião pousar antes, se esborracha na montanha, se pousar depois cai no rio. O avião tem de tocar no solo no exato ponto. Eu encarei o desafio de ir pregar em uma festa que reunia as 9 maiores tribos do parque indígena do Tumucumaque. E lá fomos nós. O aviãozinho jogava muito, pra lá e pra cá, pra cima e pra baixo. E eu agarrado na minha poltrona. Nosso voo demorou cerca de uma hora e meia sobre a floresta amazônica. O comandante da aeronave me disse que por onde estávamos sobrevoando não havia nenhuma cidade. A mais próxima estava a mais de 2 mil quilômetros de distância. 

Estávamos acima de um manto verde infinito. Quem me conhece sabe que eu morro de medo de voar em aviões comerciais, e pensar que agora eu estava em um pequenino avião sem a mínima estabilidade e que precisava de uma revisão geral urgente. Eu ia orando em espírito o voo todo. Olha aí neste link do YouTube como foi nossa decolagem daqui do aeroporto de Macapá. ( https://www.youtube.com/watch?v=pd2yyGpET-8 ). A viagem foi cheia de solavancos pesado. Voar sobre a Amazônia em tempo de chuva é difícil demais. Tinha horas que o avião subia tanto que o meu ouvido começava a zunir, quando precisávamos passar por cima de uma nuvem de chuva, depois baixávamos tanto que eu tinha a impressão que íamos bater na copa das árvores. E assim prosseguimos. Depois de algum tempo avistei no meio da grande floresta amazônica um pequeno ponto, uma clareira, era um pequeno povoado. Era a tribo indígena Xuxumeni. O piloto pediu para que todos apertássemos nossos cintos pois íamos aterrissar. A pista era toda ondulada, pois foi feita pelos próprios índios. Eu já começava a imaginar como seria o solavanco no momento do pouso Estava preparado para tudo naquele momento. Fechei meus olhos, fiz aquela oração “entregando minha alma nas mãos de Deus”, respirei e esperei. Eu estava fazendo a Obra do Senhor. Precisávamos chegar ali, pois havia também um índio picado de cobra venenosa e uma gestante em início de trabalho de parto. As informações eram repassadas a nós em pleno voo via rádio pela equipe da FUNAI que estava na tribo. Eu ia registrando tudo. 

E até hoje quando assisto a essa filmagem me pergunto como tive coragem pra fazer isso. Veja o vídeo do nosso pouso nessa tribo indígena ( https://www.youtube.com/watch?v=9W_xQSwn5gI ). Neste vídeo vocês podem ver que quando a aeronave toca o solo as malas voam por cima de mim. Toda a bagagem ficou espalhada no chão da aeronave após o pouso. O que mais me impressionou no primeiro contato com esses índios, foi a quantidade de câmeras e celulares que quase todos eles portavam. Lá não pega sinal de internet, mas eles se contentam em nos filmar, tirar fotos, gravar a nossa voz e principalmente fazer infinitos ‘selfies’ com a gente. Vê se pode!? Eu perguntei ao meu tradutor como era possível isso? Ele me disse que cada índio recebe uma bolsa do governo federal, e como eles são autossuficientes (produzem tudo que consomem) eles encomendam aos funcionários da FUNAI e aos índios que vem fazer tratamento em Macapá, para que comprem essas tecnologias a cada vez que vem a Macapá ou Belém. Pois bem, quando cheguei na tribo indígena, fomos recebidos pelos nove caciques das tribos reunidas ali. Eles nos serviram um almoço farto. Foi aí que veio o meu segundo impacto: a comida!. Veja só o que me foi servido ali (foto 1). Eles começaram a trazer as comidas e colocar sobre a mesa. Eles ficavam olhando no meu rosto para ver qual seria a minha reação. 

Claro que eu sorria pra todo mundo, mostrava que estava satisfeito. Até ajudei a índia esposa do cacique no preparo da iguaria exótica. Olha eu ali mexendo a panela (foto 2). Foi-me servido um tipo de macaco enorme que dá naquela região chamada de “guariba”. Tem guariba que tem quase o tamanho de um adolescente. Eu vi aquilo, me enrolou o estômago, pedi então pra ir ao banheiro. Pra “tirar uma bronca” e pensar um pouco se eu ia ou não comer. Um dos índios me apontou onde ficava o banheiro e para lá fui. Gente, vocês não tem ideia do que eu vi ali. Os cantos das paredes de madeira lastreados de uma massa preta incrustada. Olhei mais de perto e descobri o que era aquela massa. E aí me veio que eles não usam papel higiênico lá. Ai já viu, se já estava com nojo, imagina agora? Saí de lá correndo. Fui em direção ao rio aliviar minha bexiga. Você tem que lembrar que estou falando de índios isolados que até pouco tempo não tinham contato com ninguém. Muitos deles (a maioria) nunca vieram na cidade. Veio-me a vontade de voltar na mesma hora. Pois bem, eu fui para o rio. Cheguei lá e comecei a me aliviar urinando na água e fiquei pensando e olhando para o céu. Quando olhei para as minhas calças, enxerguei formigas enormes, gigantes, subindo nas minhas pernas, que são típicas daquela região, as famosas "tucandeiras". 

O cacique me falou que eu levei sorte de nenhuma ter me picado. Disse que eu adoeceria e poderia até mesmo ter febre. O cacique pediu para que não me afastasse do meu guia. Voltei para o almoço que estava sendo servido à nossa comitiva. Eu resolvi comer algo parecido com um "biju" que estava sobre a mesa. Tinha o tamanho de uma tampa de panela de vatapá, daquelas grandes. Tinha quase dois dedos de espessura. Duro pra “dedéu”. Quase quebro meu canino esquerdo querendo degustar aquilo a qualquer custo. Aí o meu guia disse que eu estava fazendo errado. Que era pra que eu jogasse o café e esperar amolecer. Comi duas daquelas coisas. O cacique me falou que algumas índias estavam prepararam uma recepção na igreja para a nossa equipe. Após o almoço, no caminho para a igreja, resolvi perguntar pro meu guia como era feito aquilo que eu havia acabado de comer. Ele me puxou para o lado e disse perto do meu ouvido: "você quer saber mesmo?" Deu-me um gelo na espinha dorsal. Ele então me levou para uma oca (casa dos índios) onde havia várias índias preparando a comida para a festa. Eu vi umas 8 índias mastigando algo. Pensei até que fosse chiclete. Então vi outra índia passar com um prato recolhendo a massa que todas elas mastigavam. O guia me falou: "é aquilo que é a matéria prima!". Minha cabeça rodou e imediatamente reclamei dizendo: “por que você não me falou antes?”. Antes de seguir, ainda recebi um forte abraço de uma delas, com um sorriso alegre e com a boca quase desnuda. Era uma gente feliz ao seu jeito. Eu não sabia se ria ou se chorava. No caminho vi uma índia que comia piolho do seu macaco de estimação. Era um mundo desconhecido pra mim. 

Cada passo dentro daquela tribo era uma descoberta. Fui para a igreja. E lá chegando, olha só a recepção que tivemos: Várias índias prepararam uma recepção muito linda. Elas cantavam e dançavam para nos receber. Me emocionei de mais com aquilo. Veja neste link do youtube a recepção com dança que as índias fizeram pra nós... (https://www.youtube.com/watch?v=_lN5lLayFG4). Foi lindo. Até hoje quando assisto a esse vídeo me emociono. As índias cantavam na sua língua em extinção: "yeshua maia phou", que depois o tradutor me disse que significa "Jesus mudou minha vida". Depois da recepção, no caminho de retorno, me apresentaram meu hotel: uma tenda feita de pedaços de galhos de árvores e coberta com uma lona. Lá encontrei índios católicos, evangélicos, e outros que se mantem ligados às suas antigas religiões dos seus antepassados. É um ambiente de liberdade religiosa como em qualquer lugar do Brasil, norteada pelo livre arbítrio, democracia e liberdade. Quando fui levado à oca de um dos caciques, estendi a mão para cumprimentar a esposa do cacique, e ela deu um pulo pra trás espantada. Eu até me assustei com aquilo. Depois fiquei sabendo que os homens não podem tocar, nem esbarrar em nenhuma mulher. Por outro lado a receptividade do caciquei era grande e quando olhei pra lado ele me deu um beijo no rosto. Coisa deles. Coisa estranha relacionada aos seus costumes. 

Ali eu vi a primeira Bíblia com todo o novo testamento traduzida na língua deles. Na capa estava escrito: "Kam Pampilan" que significa Bíblia Sagrada. Levamos cerca de 340 brinquedos e distribuímos para todas as crianças, pois como disse acima, era o dia das crianças. Mas teve uma que não queria o brinquedo. O menino de 9 anos me pediu o novo testamento que eu tinha em minhas mãos. Nem pensei duas vezes. Dei a ele. Foi uma felicidade! A Bíblia parcial feita na linguagem deles foi feita por um grupo de missionários da JOCUM (Jovens com Uma Missão), uma espécie de ONG religiosa voltada para missões em todo mundo. Enquanto eu ministrava a palavra de Deus aos índios, chegou a informação de que havia ocorrido um naufrágio durante o círio fluvial em frente à Macapá e que ceifou a vida de 18 pessoas. Imediatamente todos se jogaram com o rosto no solo. Choravam alto e batiam com as mãos no solo. A poeira subiu do chão de terra batida. Assustado, perguntei ao tradutor o que significava aquilo. A resposta foi uma lição de humanidade que nunca esquecerei. Ele me disse que era daquela forma que os índios se compadeciam e comungavam da dor das pessoas que perderam seus entes queridos. Mesmo que não conhecessem nenhum deles, eles compartilhavam da dor. Refleti muito sobre o sentido da palavra empatia que na nossa língua quer significa: “tendência para sentir o que sentira outra pessoa, se estive em situação vivida por outra pessoa” (Aurélio da Língua Portuguesa). 

Ali eu definitivamente compreendi o profundo sentido dessa palavra. Após esse fato eu prossegui na ministração. Cerca de uma hora depois, em meio a minha pregação na igreja, um índio adentrou na igreja e me interrompeu gritando : "pegaram mais uma, pegaram mais uma". Eu me perguntei atônito: “Uma!?”. Eu me espantei com aquilo. O tradutor me disse que se tratava de uma anta enorme que os guerreiros haviam caçado e que ela ainda estava lá no meio do mato. Pesava mais de 250 Kg. Depois fiquei sabendo que cada vez que matavam uma anta, parava tudo na tribo. Todos vão para a beira do Rio Paru do Leste, que corta a região esperar os guerreiros. Eu fui junto, sabe ali no meio de todo mundo, sem saber ao certo o que estava fazendo. No trajeto um dos caciques me convidou para ir buscar a anta no mato. Depois fiquei sabendo que se trata de um costume indígena local, algo que pra eles é uma honra. Irem buscar a caça no mato enquanto as mulheres esperam na beirada do rio a chegada para comemorar o ato ou dádiva divina conjuntamente. A pregação foi “beleléu”. Só a retomei a noite. Eu era traduzido por um índio que compreendia o português. Resolvi encarar o desafio e entrar no barco para ir atrás da “tal” anta. Eram aproximadamente 16:00h. 

E lá vou eu, de gravata, sapato engraxado e calça social pra dentro da mata fechada. Lá a festa é direto, começa 6 da manhã e termina às 2 da madrugada. Eu nuca preguei tanto como nesses dias. Chegávamos a ter 5 intervalos entre os diversos cultos. Parávamos só pra as refeições ou lanches e depois continuávamos. É coisa uma de outro mundo. A festa lá não é só a noite como acontece nas cidades. É o dia todo, e parece que não existe cansaço naquele povo. Ele não bebem, mas cantam e dançam muito. Nós paramos a certo ponto rio acima, na beirada do rio. Isso depois que já havíamos navegado de voadeira por mais de 30 minutos. Prosseguimos numa trilha mata adentro. Eu olhei no relógio e já eram 16:30h.Depois que já havíamos caminhado bastante eu comecei a perguntar se ainda faltava muito (igual ao burro do filme Shrek) e nada da gente parar de andar. Cada vez mais para dentro da floresta, subíamos, descíamos, atravessávamos riachos, atolei meu sapato engraxado na lama, de forma que eu não estava mais conseguindo acompanhar o ritmo de caminhada dos índios. Eles começaram a se afastar de mim, cada vez mais, cada vez mais, e eu gritava de longe. E eles cada vez mais longe, até que eu percebi que havia me perdido do resto do grupo. Olhei para o meu relógio que já marcava 18:00h. Senti um calafrio que nunca vou esquecer. Comecei a me preocupar. Comecei a gritar primeiro baixinho, depois cada vez mais alto, até se transformarem em berro misturados ao choro desesperado. Quando então levantei as mãos para o alto e fiz uma oração de olhos fechados: "Senhor tu não me trouxestes de tão longe pra me perder no meio do nada". Quando eu abri os olhos vi vários índios em silêncio atrás da moita rindo de mim. 

Os caras estavam me "zoando", vê se pode!? Descobri que isso é uma característica deles. Gostam de “pregar peças” nos visitantes. Senti um misto de alívio e indignação. Fiquei chateado e decidi que não queria mais ir buscar a “tal” anta. Eu queria voltar pra beira do rio, pra voadeira. Um dos índios me acompanhou. No caminho do retorno, ele me perguntou se eu estava com fome. Respondi dizendo: "claro que sim, veja o horário". Ele me disse: "aqui tem umas frutinhas que vão lhe ajudar a passar fome". Eu olhei e elas pareciam um cachinho de uvas, tinham até a mesma cor. Não me recordo o nome exato da frutinha. Enquanto eu voltava, os demais índios continuaram mata adentro em busca da anta para ir buscá-la. Mas eu resolvi voltar porque fiquei com medo, pois já eram 18:25h. Estava anoitecendo e eu não podia ficar lá no meio do mato. Esse horário é a hora em que os jacarés saem pra caçar e as cobras saem das suas tocas para irem para o rio. Pois bem, a “tal” frutinha estava na árvore a cerca de 6 metros do chão. O índio me perguntou: "você quer?". Eu balancei a cabeça concordando, e para a minha surpresa ele subiu na árvore igual a um macaco, e com apenas dois ou três saltos entre os galhos, apanhou alcançou as frutinhas. Eu fiquei boquiaberto com aquilo. Nunca imaginei no que o homem é capaz de fazer em certas condições. 

Eu comi as frutinhas, eram saborosas e adocicadas. Cinco minutos depois minha voz começou a ficar grossa, mais grave. Eu virei para o índio e perguntei pra ele havia me dado? Ele me disse que é bom pra passar a fome, mas deixa "a voz engraçada" e riu novamente. Eu reclamei com ele. Disse: “Você não sabe que eu vou pregar daqui a pouco na igreja?, como vc me apronta uma dessas? Já não bastava o susto que levei agora a pouco?”. Era novamente uma pegadinha dos índios. De novo? Que coisa chata! O nome dá frutinha? Não me recordo. Mas anotei em algum lugar da minha agenda. Pois bem, no retorno, ainda na voadeira no meio do rio, começou a me dar um sono terrível. Quase caio na agua. Perguntei novamente pra ele, e agora o que foi tu fez? Descobri que até o índio tradutor estava em conluio no meio das pegadinhas e “zueiras” sucessivas. E eu insisti perguntando por que eu estava com tanto sono? Todos eles riram juntos. Eu disse: “vocês vão todos pro inferno!” Aí que eles riram mais alto. Foi então que descobri que a “tal” frutinha, além de deixar a voz grossa e medonha, ainda dá um sono desgraçado. Por fim retornamos à tribo. Depois de algum tempo os demais índios chegaram atrás nas canoas trazendo a anta. Os demais índios chegaram trazendo a enorme anta e logo foram preparando a caça. Era comida demais. 

O costume deles é jantar antes de irem para a igreja. Por isso foi aquela correria. Eu me aprontei rapidinho e fiquei esperando as índias terminarem o jantar. Parecia tão gostoso o cheiro que vinha da cozinha. Já estava anoitecendo e eu ali esperando o jantar ser servido. As índias preparavam a comida rapidamente. Sobrou pra mim uma enorme pata dianteira da anta. Achei aquela parte bem macia e gostosa. Eu comi bastante. E logo depois fui preparado para levar a mensagem na igreja, que estava lotada. Ainda durante os cânticos, senti o primeiro preocupante “abalo intestinal”. Aquele barulhão assustador. Eu tenho sempre a impressão que sou de ferro. Mesmo cansado, com sono, e agora com uma enorme dor de barriga, eu fui pregar. Quando encarei cerca de 300 índios, comecei a imaginar as terríveis coisas que poderiam acontecer se eu não conseguisse conter aquele desespero intestinal que me atormentava naquele momento. Eu suava frio, esquecia a sequencia da mensagem, travava a musculatura glútea, tudo para tentar equilibrar e conter o que seria a maior vergonha da minha vida. Misericórdia! Não foi fácil. Pra completar o tempo que me deram para ministrar foi gigantesco. Pareciam anos. Parece que o tempo não corria. E mesmo nestas condições a igreja pegou fogo no poder do Espírito Santo. 

Eles nem imaginavam que o que eu mais queria, era que tudo aquilo terminasse logo, pra que eu pudesse correr desesperado pra aquele banheiro (aquele banheiro!), que aliás era o único da tribo. Terminou o culto perto da meia noite. E ninguém me encontrou mais. Saí dali pelos fundos da igreja. Corri no meio da escuridão com as pernas travadas e com a musculatura enrijecida, e rosto suando frio, e nem mais enxergava nada na minha frente. Foi apenas o momento de adentrar naquele velho "retrete". Parece que os segundos foram cronometrados para aquele tão esperado momento. Alívio! Minha curiosidade enquanto me recompunha, era saber o que tinha me feito tanto mal? Seria: 1)frutinha, 2)cansaço excessivo da caminhada, 3)o biju ou 4)a anta? Eram tantas as possibilidades que no final entendi que foi um conjunto de fatores que desaguaram (não é esta a melhor expressão) naquele momento cataclísmico. Mas eu estava tão envolvido espiritualmente, que isso não me abalou. Minha salvação foi um comprimido de IMOSEC que o comandante havia levado. Terminado os momentos de angústia, me dirigi ao meu “hotel”. 

Cheguei cansado, mas sem sono. Ouvi algo estranho, parecia um grito que vinha do meio do mato, algo muito medonho. Parecia uma mulher gritando desesperada. O meu tradutor disse que era o tal macaco guariba. Deitei na minha rede, em uma tenda improvisada coberta por uma lona velha azul , e sem nenhuma cobertura lateral, olhei para as estrelas, olhava para a escuridão da mata, aqueles sons estranhos, e algo começou a me deixar relativamente incomodado. Aquele silêncio dos índios, um silêncio preocupante. Ninguém se movia na tribo, ninguém falava nada. Percebi que algo não estava certo ali. Eu senti isso no olhar de cada índio. Fui o único da equipe que não pegou logo no sono. Por volta de 2 horas da madrugada fomos chamados por um índio. O cacique queria falar comigo e com o restante dos pastores. Corri até o meio da aldeia. Lá encontrei vários índios reunidos. Praticamente quase toda a tribo estava acordada e em silêncio. 

O cacique Moppheru, da aldeia indígena do Bona, começou a me relatar o que andava acontecendo naquela aldeia. Ele me contou que há cerca de 6 meses muitos índios relatavam que andavam vendo "coisas". Coisas estranhas. Logo de inicio, pensava-se que eram alucinações, mentiras ou cansaço. Depois a coisa começou a piorar. Muitos índios afirmavam que andavam vendo parentes e amigos que já haviam morrido há anos, passeando na mata próxima a aldeia. Ouviam gritos, gemidos, panelas caírem no meio da madrugada, e até “chamados”. Isso mesmo, os espíritos chamavam pelos nomes dos índios, para eles adentrassem na floresta em plena madrugada. Por isso disse que senti aquele silencio muito misterioso. Eu como pastor não poderia me mostrar medroso. Mesmo que por dentro estivesse arrepiado com aqueles relatos. 

O cacique estendeu a mão e disse pra mim: "quero que você coloque o teu poder nas minhas mãos agora". Eu senti o tamanho da ingenuidade daquele cacique e disse a ele: "Eu não posso fazer isso, mas vou orar a quem pode". O cacique Moppheru mandou chamar a filha dele, de apenas 8 anos de idade. Um índio chegou carregando a menina que estava atormentada. Tinha um olhar que eu nunca vou esquecer. Olhar de medo, tormento, terror, algo indescritível. Senti que aquilo estava fora na normalidade. A menina não me encarava. Quando o índio a soltou, ela correu imediatamente para trás da perna do seu pai, (do Cacique Moppheru) e de lá gritava: "lá vem eles, lá vem eles!". E cada vez que ela gritava os índios eram tomados por uma onda de medo. Eu senti que as forças do mal estavam se alimentando do medo daquela tribo. Eu perguntei ao cacique há quanto tempo sua filha estava daquele jeito? Ele me respondeu que fazia cerca de 6 meses que tudo isso havia começado. Eu pedi a todos os índios que pegassem uns nas mãos dos outros, de forma que ninguém ficasse sem pegar na mão do outro. Coloquei os 9 caciques no meio daquela grande roda e abri no Salmo 91, e comecei a lê-lo:

“1 Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Todo-Poderoso descansará. 2 Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio. 3 Porque ele te livra do laço do passarinho, e da peste perniciosa. 4 Ele te cobre com as suas penas, e debaixo das suas asas encontras refúgio; a sua verdade é escudo e broquel. 5 Não temerás os terrores da noite, nem a seta que voe de dia. 6 nem peste que anda na escuridão, nem mortandade que assole ao meio-dia. 7 Mil poderão cair ao teu lado, e dez mil à tua direita; mas tu não serás atingido. 8 Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios. 9 Porquanto fizeste do Senhor o teu refúgio, e do Altíssimo a tua habitação, 10 nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda. 11 Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos. 12 Eles te susterão nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra. 13 Pisarás o leão e a áspide; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente. 14 Pois que tanto me amou, eu o livrarei; pô-lo-ei num alto retiro, porque ele conhece o meu nome. 15 Quando ele me invocar, eu lhe responderei; estarei com ele na angústia, livrá-lo-ei, e o honrarei. 16 Com longura de dias fartá-lo-ei, e lhe mostrarei a minha salvação”. 

Era o salmo de proteção, de guarda e refrigério da alma. Ao terminar iniciei uma oração repreendendo todo mal, todo medo, toda angústia, e por fim repreendendo o espírito imundo que havia se alojado naquela menina. Terminamos a oração e a menina desmaiou. Foi aquele alvoroço Mas ela foi retornando devagar. Eu tinha plena convicção de que se tratava de possessão demoníaca. Nada aconteceu durante toda a noite. O tradutor me disse que foi a primeira vez naqueles 6 meses que nenhum relato havia acontecido durante toda a madrugada. Foi uma noite tranquila. Eu já me senti parte da tribo indígena. Na noite anterior, no fim do culto eu havia feito uma oração estranha, oração que nunca tinha feito. Eu orei pelos guerreiros que vão caçar durante a madrugada na floresta. Um grupo de índios adolescentes, jovens e adultos (cerca de 20) que saem toda a noite para conseguir caça e alimentos para toda a aldeia. Minha oração era para que nenhuma cobra, onça ou outro animal os atacassem durante a noite. Tudo é compartilhado entre eles, do biju a anta. Há um sentimento de compartilhamento natural entre eles. Ninguém ali passa fome. Eu comi no café da manhã caldo de tamuatá, biju, banana, e tucunaré. Acho que os índios perceberam que eu não havia gostado de algumas coisas do dia anterior. Por sorte não me serviram anta. 

Na sequencia tivemos um estudo ministrado por mim sobre "arrebatamento da igreja". Eles colocaram seus muitos celulares próximos ao púlpito para gravarem toda a ministração e prestavam muita atenção em tudo. Alguns usavam até notebooks. A menina estava pela manhã correndo dentro da igreja, já bem espertinha e alegre. Mas o pai dela tinha receio que depois que saíssemos de lá a situação retornasse à estaca zero, o que não ocorreu. Eu disse a ele que tivesse fé. Deixei minha bíblia com ele. E o recomendei que fizesse o que eu fiz naquela noite, todos os dias dentro de sua casa, que isso nunca mais aconteceria. Terminado o estudo pela manhã do dia 13 de outubro na igreja, fomos para a beirada do Rio Paru do Leste. Era manhã de batismo nas águas. Uma multidão enorme de índios se aglomerava na beirada do rio para acompanhar seus parentes e amigos. Mas dentre todas as pessoas, uma me chamou a atenção. Era a neta, de apenas 15 anos, do cacique Waremã da Aldeia Yareray. Uma adolescente tetraplégica, que chegou em uma cadeira de rodas. No caminho entre a igreja e o rio, este cacique me mostrou o cemitério onde, segundo ele, várias crianças recém-nascidas eram enterradas vivas. 

Isso fazia parte de sua cultura, passada de pai para filho, há centenas de anos. Ele mesmo disse que foi obrigado por essas normas a acompanhar, muitas vezes chorando, o enterro vivo de seus netos e netas. Isso aconteceu até há cerca de 20 anos atrás. A prática do infanticídio era realizada porque eles acreditavam que a criança que nascesse com algum defeito físico, anatômico ou mental estava possuído por um espírito de maldição. E que essa maldição poderia ser passada a tribo caso não extirpasse do meio da tribo imediatamente aquela criança. Ele com lágrimas nos olhos me perguntou se Jesus o perdoaria por tudo que ele fez sem conhecer o evangelho. Eu respondi a ele dizendo que Jesus não os reputa nossos atos relativos ao nosso período de ignorância. Voltando ao batismo, ali estava a neta tetraplégica do cacique. Dois índios a trouxeram até mim. No momento em que ela foi imersa nas águas daquele rio, ela foi batizada duplamente, nas águas e em línguas estranhas. Os índios se alegraram e começaram a cantar e dançar. Os olhos do cacique Waremã, um senhor de 75 anos, estavam cheios de lágrimas. 

Ele a abraçou e disse para mim: "meu olhos nunca veriam esse momento se Jesus Cristo caso não tivesse entrado em minha vida". Erguemos nossas mãos juntamente com os índios para mostrar que somos um em Cristo. Saímos das águas do rio Paru do Leste renovados e com a sensação de dever cumprido. Foi maravilhosa a sensação que tive naquele momento, e nunca vou esquecer. Fiquei sabendo que havia um entrevero entre duas grandes famílias naquela aldeia. Por causa de uma discussão banal, até morte já havia acontecido de ambos os lados. Na primeira briga, uma criança teria fraturado a cabeça ao cair dos braços do seu pai durante uma luta corporal com outro índio. A criança veio transportada pelo avião da FUNAI mal para Macapá, acompanhada de seu pai, mas não resistiu e morreu. Quando o pai da criança retornou para a aldeia, ele foi à casa de seu desafeto e munido de uma faca, adentrou na casa do índio que havia provocado a morte do seu filho e o matou. Foi um desespero total. Ameaças se sucederam de ambos os lados na sequencia. 

Não há polícia ali, ou seja, tudo que alguém colocar em sua cabeça pode ser levado a cabo naquele lugar. Quando a situação nos foi repassada, com muita cautela, procurei reunir as duas famílias na igreja. Trouxe uma palavra sobre perdão, amor e união. Ao final, vários índios de reconciliaram, e em lágrima, as duas famílias se abraçaram e se perdoaram. Foi um momento de muita emoção. Antes de embarcarmos de volta, os índios preparam uma despedida linda dentro da igreja. Formaram uma enorme fila para nos abraçar. Cada um deles colocava sobre meu pescoço um colar, como lembrança e como ato de reconhecimento. Mas foi na hora em que o cacique-mor Waremã, tirou o seu cocar e o colocou sobre minha cabeça, que todos se curvaram. Aí entendi que aquele cocar carrega o respeito, o amor e o carinho daquela gente em relação à quem o usa. Hoje esse presente está guardado na sala de estar da minha casa em lugar de destaque. Embarcamos no monomotor e eu fiquei olhando pela janela do avião até a aldeia desaparecer se perder na distância, em meio a floresta e as nuvens. Retornei daquela tribo, e um pedaço de mim ficou ali. Compreendi que o verdadeiro sentido da irmandade vai muito além de um conceito materialista e egoísta que conhecemos em nossa sociedade capitalista. Foi uma experiência inesquecível. FIM !

























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