domingo, 30 de agosto de 2015

Deságue no oceano (Por Pr Gesiel de Souza Oliveira)

"Nossas aflições são escolas que edificam lições perenes. Aprendemos e crescemos muito mais no deserto que no vale da benção. Alimentamos e edificamos muito mais nossas vidas nas agruras, porque a fartura atrai amizades esvaziadas de sinceridade e ilusões de um mundo de papel que os ventos das aflições rapidamente podem destruir. As lágrimas regam a semente dos seus sonhos, e muitas vezes temos a impressão que essa semente caiu em solo infértil. A grande verdade é que queremos sempre acreditar que tudo na vida tem de dar certo, que sempre devemos ser felizes e que um sinal de felicidade é o sucesso. Isso não é verdade! Nossa vida é um misto de altos e baixos, em muitos casos mais baixos, que altos. Um contrabalanceamento de alegrias e tristezas constantes e ininterruptas. E a visão distorcida a respeito disso empobrece e frustra muitas pessoas. Atenda ao que te faz seguir adiante, ao te emociona, e faz acender uma luz no fim deste túnel sombrio. Há momentos que é melhor ouvir com o coração e agir com a razão, e não o contrário. Haverão momentos da vida em que as flores deixarão de exalar seu perfume, que o azul do céu dará lugar a um acinzentado melancólico e os pássaros deixarão de cantar na trilha da sua jornada. Mas é nesses momentos, em que a dor da solidão aperta a sua alma, é que devemos lembrar que você é como um pequeno rio, que passa e corta muitas regiões diferentes, algumas férteis outras áridas, mas que não pode retroagir, e que em certo momento, vai ser transformar em um grande oceano. Prossiga, deságue, transforme-se e descubra a dimensão do que te aguarda adiante nesse oceano da vida".

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A igrejinha ribeirinha da Ilha do Marajó (Por Pr Gesiel Oliveira)

Há uma comunidade nas ilhas paraenses chamada de Ilha dos Carás, na Ilha do Marajó, em meio à variedade de ilhas na foz do Rio Amazonas, onde estive pela primeira vez em 24 de novembro de 2012. Fica a cerca de 3 horas de barco a partir de Macapá. As únicas embarcações que chegam à região são as pequenas lanchas chamadas de “puc-puc”. Eu viajei até lá em uma delas, em meio a cestos de camarões, fardos de farinha e outros mantimentos encomendados pelos ribeirinhos. Fomos abrir uma igreja da Assembleia de Deus Zona Norte, onde trabalho como vice-presidente há quase 18 anos. A igreja fica em meio ao nada, na beira de um rio cercado de floresta. Foi um desafio gigantesco para o pastor que enviamos para lá, o Pr Benedito Nahum Barbosa. Eu cheguei à ilha e vi um cenário que poderia amedrontar qualquer um, menos a um obreiro de fé. Não há luz, água tratada e encanada, escola, posto de saúde, posto de polícia, há muitos mosquitos, morcegos, etc, mas apesar de todas as dificuldades, encontrei um povo muito receptivo e alegre. Trataram-me com tanto amor que rapidamente me senti em casa. Vi de perto o que passa um povo abandonado pelo poder público. Um senhor de cerca de 70 anos, que usava uma muleta, e que doou o terreno para construirmos a igreja, me disse que estava orando há mais de 30 anos para Deus pedindo que alguma igreja olhasse para aquela região esquecida e construísse uma igrejinha ali. Eu pude sentir a alegria em seus olhos. O alimento é retirado ali mesmo, açaí, farinha e peixe. Depois do almoço, dormi na passarela que leva ao sanitário. Foi o único lugar suspenso que encontrei para descansar meu corpo depois daquela longa e cansativa viagem. Descansei minha cabeça e o ângulo da minha visão vislumbrava a copa das árvores de açaí, e um céu azul espetacular, com aves como: arara, periquitos, tucanos, papagaios e tanta diversidade da fauna amazônica. Descobri que em meio a maior dificuldade nenhum deles passa fome, pois o pouco que cada um consegue, dividem, compartilham fraternalmente entre si. Na igreja eles reforçam ainda mais esse sentimento de união e fraternidade. A dificuldade não é, e nunca foi, empecilho para esse povo. Conseguiram um motor e alguns litros de gasolina. Pronto, era o suficiente para gerar energia elétrica e começarmos o culto. Tomamos banho na proa e alguns na popa da lancha, em um lugar depois da curva do rio, e trocamos nossa roupa dentro da própria lancha. Antes de começar o culto, por volta de 18:30h eu estava sozinho em frente à igreja, ali perto de mim, mais alguns poucos irmãos organizavam o motor para gerar a eletricidade. Eu pensei comigo: “acho que não vai dar ninguém nesse culto”. De repente começaram a entrar um após outro, vários barcos no rio. Em questão de minutos o rio estava tomado de barcos pequenos e médios. Eles foram ancorando no pequeno porto e usavam a parte de cima dos barcos como passarela, passando de um em um até chegar à igreja. Eu estava no culto à noite e preguei para uma igreja avivada. Olhei para o conjunto infantil e pude perceber que várias crianças não tinham sequer uma sandália. Mas aquelas criancinhas cantavam com tanta vontade de louvar a Deus. Ao final do culto um belo jantar foi servido a todos nós. Eu retornei a Macapá logo depois. E no meio da escuridão, o nosso barquinho ia se afastando. Eu olhava aquele pontinho de luz no meio da escuridão e ficava imaginando a vida daquele povo. Mas dali extraí muitas lições importantes, entre as quais, os principais foram a FRATERNIDADE e a FÉ, esses sentimentos que vinculam aquele povo, e que lhes permitem seguirem em frente mesmo em meio a toda aquela dificuldade. O Pr Benedito Barbosa continua lá até hoje, trabalhando para Deus e cuidando daquele sofrido e unido povo. Como o dinheiro quase não circula nessa região, ele recebe alguns dízimos em forma de peixe, galinha, açaí, pato, mas continua determinado a levar a Palavra de Deus aos mais necessitados. São guerreiros reais desconhecidos, que vivem nesse nosso grande Brasil, fazendo a Obra do Senhor e vivendo da fé. Ore por esses nossos irmãos, ore por esse povo, ore por essa igreja que resiste. Apoie o trabalho de missões e nunca deixe apagar a chama da fraternidade em seu coração.





















domingo, 9 de agosto de 2015

O verdadeiro significado da riqueza (Por Gesiel de Souza Oliveira)

Outro dia um conhecido meu me perguntou por que eu estagnei como pastor, sendo formado em direito e geografia, já que eu poderia continuar estudando até chegar a um doutorado/PHD ou mesmo passar em um concurso para juiz ou promotor que recebe um salário muito maior. Não desmerecendo tão importantes carreiras, mas esse nunca foi o meu foco. Eu sei o que eu quero e sempre soube. Eu amo o que faço! Por isso respondi: “isso é o que faz muitas pessoas infelizes, buscarem somente aquilo que lhes trazem dinheiro, fama e poder e não o que lhes trazem felicidade”. Fiquei pensando naquilo e refletindo como muitas pessoas perdem a vida, e sem perceber o tempo passar, perdem-na sem nunca encontrar o seu foco. A pergunta que você deve fazer para si mesmo é aquela que sua mãe sempre lhe perguntava quando você era apenas uma criança sonhadora: “o que você quer ser quando crescer?”. Sobra sonhos e falta foco, por isso é que no grito do silêncio reprimido interior, muitas pessoas aprisionam suas ansiedades, angústias, fracassos, medos, frustrações e decepções, tentando levar a vida adiante, mas permanecem ancorados em seus temores, receios e medos de tentar ir à luta, e assim desejam mas não conseguem avançar, pois ignoram a origem da sua infelicidade e acabam enganando-se a si mesmos, estagnados entre o passado e o futuro, sem perspectivas e muitas vezes até sem a capacidade de sonhar, pois as decepções da vida lhe tiraram até isso. Creio que o maior segredo de uma vida plena é fazer o que lhe traz paz, o que te dá prazer, o que lhe inspira a prosseguir, o que te faz sorrir nesta jornada que visa principalmente buscar o bem comum e não somente alimentar o senso egocêntrico da fome ilimitada que tenta nos impedir de pensar coletivamente. Lembre-se do que disse Mahatma Gandhi: “quem não vive para servir, não serve para viver”. Por isso tenha sempre em sua mente: “qual é o meu foco?”. Quando eu era criança eu sonhava ser super-herói. Hoje compreendo que os verdadeiros super-heróis não usam capa, nem tem super-poderes, mas sim tem muita vontade de mudar o mundo em nossa volta, de torná-lo melhor no pouco que lhes permite alcançar. Eles estão entre nós. A maioria absoluta deles não são ricos materialmente, pois já compreenderam que o verdadeiro sentido de ser rico não está relacionado ao quanto você tem, mas sim ao quanto você pode dar e compartilhar.

Ser pai (Por Gesiel de Souza Oliveira)

Minha maior riqueza
As criancinhas o chamam de “meu super-herói”, os filhos adolescentes o chamam de “quadrado”, os filhos casados o chamam de “minha referência”, a esposa o chama de “meu amor”, a lei o chama de “ascendente de 1º grau em linha reta”, a família o chama de “provedor”. Seja lá qual for o adjetivo dado, hoje é o dia dele, hoje é o Dia dos Pais. Ser pai é muito mais que uma relação biológica, é bem mais que isso, é um vínculo de coração eterno. O filho o observa a cada passo, a cada atitude, a cada escolha, e é exatamente por isso que eles exercem tão grande influência na formação comportamental, psicológica e afetiva de seus filhos. Ser pai não é ser poeta que ensina com letras, ser pai é ensinar com atitudes, pois aquilo que você faz fala mais alto que o que você diz. Pai é aquele que sabe distinguir as prioridades de sua vida. Sabe dar mais valor a cada pequeno detalhe, mesmo que para isso os grandes compromissos sejam postergados. Ser pai é rir sem motivação, simplesmente por estar suado em uma brincadeira sadia ao lado de seu filhinho(a). Ser pai é compreender que nossos filhos nunca envelhecem, que eles sempre serão nossas eternas criancinhas. Ser pai é estar pronto a ajudar, apoiar, amar e ser amado. Ser pai é uma dádiva, é poder ver estampada a alegria nos rostos dos filhos quando se chega em casa depois de um dia de muito trabalho. Ser pai é ver os olhinhos dos seus filhos encherem de lágrimas ao lhe abraçar no retorno de uma viagem. É ensinar seus filhos a andar de bicicleta, a enfrentar a vida mostrando que após cada queda vem uma nova tentativa. Ser pai é colocar um “band aid” no joelho do seu filho(a) escutando a bronca da esposa e um misto de alegria e choro do seu filho(a) pela emoção de ter tentado. Ser pai é saber ouvir e falar no momento certo, saber enxugar a lágrima dos altos e baixos sentimentais e afetivos dos seus filhos adolescentes e jovens, com uma palavra que transmita perseverança. Ser pai é sentir a emoção do casamento de seus filhos, estar presente ao longo da gestação e nascimento dos filhos dos seus filhos e voltar a sentir uma forte emoção, só que desta veze como avô. Ser pai é se sujar ao correr debaixo da chuva ao lado dos seus filhinhos mesmo sem se preocupar com o resfriado depois. É ser o esteio da casa, é ter a firmeza e sensibilidade no momento certo, é ser o provedor e a esperança, é ser o “super-homem” por fora e ao mesmo tempo ter um coração sensível, cheio de compaixão e amor. Ser pai é compreender que os bons momentos da vida não são aqueles que enchem os nossos bolsos, mas sim aqueles que enchem nossos corações de alegria, com coisas simples, mas indeléveis ao lado dos nossos filhos. E ao final de tudo, depois que formos embora, só restarão o que plantamos nos corações de nossos filhos: as sementes da esperança, do amor e dedicação. Somente as boas lembranças é que permanecem, e elas são como o vento que nos toca mas não podemos vê-lo, e nem por isso deixamos de sentir a sua força. Feliz dia dos pais, a todos aqueles que estão ao nosso lado, e àqueles que mesmo não estando mais neste plano, permanecem vivos eternamente em nossos corações.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A rotina da desesperança (Por Gesiel de Souza Oliveira)

Cedo acordo ao som ininterrupto do bipe. Quero ficar um pouco mais, mas a dura realidade não me permite. Ainda é noite, mas meu dia já começou. Tomo banho às pressas, e ainda me enxugando, aos tropeços escolho minhas poucas e surradas roupas. Tenho minimizado no meu peito a esperança de que isso vai melhorar, algum dia, que isso vai passar. Corro para a parada, e lá encontro as mesmas pessoas, no mesmo horário, no mesmo ritmo frenético, e com meu sorriso formal e frio, nem mesmo preciso dizer bom dia naquele silêncio coletivo de vidas acinzentadas. Vivo num mundo onde sou invisível. Onde mecanicamente sigo no embalo do tempo, pressa e metas. Faço sempre as mesmas coisas. Os dias se passam sem mesmo que eu perceba o meu primeiro cabelo branco e as rugas que mudam dia após dia a minha expressão facial. Eu lembro que um dia eu fui mais alegre, mais disposto e mais sonhador. O fim de mais um cansativo e exaustivo dia chega. E no retorno dentro do coletivo ouço comentários sobre coisas que não vi, quero respostas a respeito de perguntas que nem sei de onde surgiram. Lembro das promessas que não cumpri e do meus planos que aos poucos foram se esvaindo até virarem apenas uma lembrança. Meu celular, quando tenho créditos, é o meu amigo sempre presente. Ele me abre um mundo fantasioso onde posto coisas que não sou, que não vivo e não tenho. Mas ele ainda é o meu último refúgio de uma vida enfadonha e sem sentido. Quando chego em casa não sei o que dói mais, se a minha cabeça, minha coluna ou minha consciência, presa à uma rotina que mesmo que eu deseje, nada muda. Entra dia, sai noite e vou me acomodando. São correntes invisíveis que me entorpecem e me aprisionam como um escravo livre. Eu sempre quis voar alto, mas me sinto como águia vivendo no galinheiro. Eu sempre sonhei com algo diferente disso, mas algo me amarra. O que fazer? Como fazer? Enquanto penso nisso, ajo, digo, repito a rotina. Enquanto sonho com o meu mundo ideal, sigo no meu mundo real. Lembro-me das palavras da minha mãe: “Tudo tem o seu tempo, tudo tem a sua vez”, mas tenho a impressão que a minha nunca chega. Eu sei que não é só o tempo que vai mudar a rota da minha vida. Não avanço porque vivo esperando o futuro pra ser feliz, sem mudar a rota do meu presente, ancorado em medos, frustrações e amarguras do meu passado. Às vezes tenho a impressão de que estou a dar socos no ar, e me pego novamente sonhando, e aí estaciono. Vejo pessoas alcançando seus objetivos, e me limito a ficar falando mal, ao invés de tomá-las como inspiração. Não sou o anjo que alguns pensam, nem sou tão ruim como meus inimigos querem. Sou apenas um ser humano cheio de falhas, sonhos, altos e baixos. Eu quero um dia soltar as âncoras do meu navio e rumar na direção do meu mar de desafios. Quero navegar rumo a novos portos, conhecer novos horizontes. E tenho de confessar que estou parado na tempestade, sem sinal de calmaria. Estou na parte de baixo nas voltas da roda gigante dessa vida. Não sei se essa roda gigante enguiçou. Mas enquanto ela não voltar a funcionar, vou ficando com esse angustiante e ininterrupto bipe, com meus olhos vermelhos, meus bolsos empoeirados e minha enferrujada esperança, porque isso sempre me foi bem mais cômodo.