Há momentos na história de uma nação em que o pêndulo político não apenas oscila, ele arremessa. E o Brasil de 2025 vive exatamente esse tipo de momento: aquele em que as placas tectônicas do poder começam a se mover de forma lenta, quase imperceptível para quem está distraído com o circo diário, mas profunda o bastante para que os que estão no topo da pirâmide institucional sintam o chão tremer sob seus pés. E é exatamente por isso que trabalham tão freneticamente, não pelo Brasil, mas pela própria sobrevivência. Comecemos pelo que a grande mídia progressista tenta minimizar com a maestria costumeira da narrativa seletiva.
CPMI aprova a quebra do sigilo de Lulinha
A CPMI, Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, aprovou a quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente da República. Para quem não acompanha o jargão parlamentar, quebra de sigilo é o instrumento jurídico pelo qual o Estado, representado aqui pelo Legislativo no exercício do seu poder investigativo, acessa informações bancárias, fiscais e telefônicas de um investigado. Em linguagem popular: as contas passam a ser lidas em voz alta. E quando o sobrenome do investigado é o mesmo do ocupante da cadeira do Palácio do Planalto, o ruído que isso produz não é apenas político, é sísmico do ponto de vista do futuro dessa corja.
Fábio Luís acumulou, segundo dados levantados durante os trabalhos da comissão, movimentações financeiras que não guardam proporção com suas atividades declaradas. O padrão é tristemente familiar para qualquer brasileiro que já assistiu aos capítulos anteriores desta velha novela chamada petismo no poder. A pergunta que o cidadão comum faz no botequim, na fila do banco, na porta da escola é: "como esse povo enriquece tanto?", agora tem um endereço formal de investigação. E isso incomoda demais as velhas engrenagens do poder e Brasília.
Isso incomoda muito
Mas o Congresso que investiga também é o Congresso que sangra. As cenas de agressão física entre parlamentares, deputados de esquerda partindo para cima de deputados de direita em pleno plenário, após a derrota na votação que autorizou a quebra do sigilo de Lulinha, expuseram algo que muitos já desconfiavam: a tolerância democrática da esquerda brasileira tem limite, e esse limite é a derrota, e ela é certa este ano.
Quando os votos não bastam, vêm os cotovelos, palavrões, empurrões e ofensas. A violência que pregam combater nas ruas foi praticada sob as câmeras do Congresso Nacional, numa espécie de Freudian slip institucional, um lapso revelador que mostra o que jaz por baixo do discurso hipócrita de "paz, democracia, tolerância e diálogo". Deputados eleitos pelo povo, pagos pelo contribuinte, resolvendo divergências políticas na base do empurrão, socos e ofensas. Se fosse da direita, seria golpismo, e ataque à democracia, mas partindo de onde vem, não passa de "luta democrática por direitos em clima acalorado".
A hipocrisia tem endereço, CEP e gabinete
Mas é no Supremo Tribunal Federal que o drama alcança suas dimensões mais perigosas, e mais reveladoras. O ministro André Mendonça, cujas decisões recentes no âmbito das investigações envolvendo o Banco Master têm repercutido como trovão num dia de céu aparentemente limpo, está na mira da mesma cúpula que se acostumou a decidir o destino do país sem prestar contas a ninguém. O caso do Banco Master, instituição financeira que acumulou uma carteira de títulos de empresas estatais e prefeituras em condições no mínimo curiosas, e que agora se vê sob escrutínio judicial, é o tipo de investigação que, se conduzida com rigor e isenção, pode revelar conexões gigantescas entre o poder financeiro e o poder político que muita gente preferiria ver permanentemente enterrada em Brasília.
Mendonça, ao avançar nessas apurações, coloca em rota de colisão dois mundos que sempre coexistiram em harmonia suspeita: o mercado financeiro que financia campanhas e a política que retribui com regulações favoráveis. É o tipo de investigação que faz qualquer outra anterior como o petrolão e o mensalão, virarem anões.
O desconforto que isso gera dentro do próprio STF é palpável e perceptível. Um tribunal que já conviveu com a paradoxal situação de alguns de seus membros serem simultaneamente julgadores e investigados, como no caso das polêmicas que cercam Alexandre de Moraes, alvo de inquéritos no exterior e de questionamentos crescentes sobre o uso discricionário de seus poderes de relator, não pode se dar ao luxo de ter um colega conduzindo investigações que podem bater à porta de aliados.
Alexandre de Moraes construiu, nos últimos anos, um poder de relator que muitos constitucionalistas, inclusive os de extração progressista, quando falam em ambiente protegido, classificam como sem precedentes na história republicana. Inquéritos abertos por iniciativa própria, censuras impostas por decisão monocrática, prisões decretadas sem o crivo do colegiado. O ministro transformou-se numa espécie de poder dentro do poder, aquilo que os juristas chamam de "jurisdição de exceção", regras que valem para todos, exceto para quem as aplica.
Dias Toffoli, por sua vez, carrega o peso de um histórico de decisões que favoreceram sistematicamente o espectro político que o indicou ao cargo. Seu nome aparece em contextos que vão desde os acordos de leniência da Odebrecht até as negociações que esvaziaram investigações cruciais. A questão não é apenas moral, é institucional. Quando a toga vira fantasia partidária, o Estado de Direito se transforma em "Estado de Partido".
E é aqui que o horizonte de 2026 deixa de ser esperança e passa a ser estratégia
As pesquisas mais recentes, inclusive as conduzidas por institutos que historicamente não simpatizam com o campo conservador, apontam para uma virada expressiva no eleitorado brasileiro. A rejeição ao governo Lula supera os 50% em vários levantamentos. O descontentamento com a inflação de alimentos, que corrói o poder de compra das famílias mais pobres, exatamente aquelas que o PT alega proteger, combinado com a percepção crescente de que há dois sistemas de justiça no Brasil (um complacente para os aliados, outro rigoroso para os adversários), está produzindo um fenômeno político que as cúpulas do PT e do STF conhecem bem: a marcha silenciosa do eleitorado em direção à mudança. Se as tendências atuais se consolidarem, as eleições de 2026 podem entregar ao campo conservador da direita algo que vai muito além da Presidência da República: uma maioria sólida na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. E isso muda tudo.
Bolsonaro não conseguiu promover mudanças profundas porque lhe faltava maioria no congresso. Já em 2027, com maioria no Congresso, os parlamentares conservadores elegem seus próprios presidentes nas duas casas. O presidente da Câmara e o presidente do Senado deixam de ser figuras de composição e se tornam executores de uma agenda. E nessa agenda, há um item que hoje dorme em gavetas empoeiradas mas que pode acordar com estrondo: os pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal.
Não são poucos e nem são novos, mas são cada dias mais iminentes
O artigo 102 da Constituição Federal e a Lei nº 1.079 de 1950, o chamado Lei do Impeachment, estabelecem com clareza os crimes de responsabilidade pelos quais um ministro do STF pode ser destituído. Entre eles: conduta incompatível com a honra do cargo, violação do sigilo de votos, e o genérico, mas poderoso, "procedimento incompatível com a dignidade, a honra e o decoro de suas funções". Advogados que militam no campo constitucional afirmam, reservadamente, que há material suficiente para pelo menos três processos de impeachment contra 7 dos 10 membros da atual composição do tribunal.
O pêndulo está em movimento
Os ministros sabem disso. Seus assessores sabem. Seus aliados no Executivo sabem. E é por isso que a energia despendida para barrar o avanço conservador nas urnas não é apenas estratégia eleitoral, é sobrevivência política e, para alguns, sobrevivência jurídica.
O Brasil vive, portanto, um daqueles raros momentos em que a história resolve apertar o acelerador. A quebra de sigilo do filho do presidente, as agressões no Congresso, as investigações que avançam em direção a territórios até então protegidos, o desconforto crescente dentro do próprio STF, tudo isso não são eventos isolados. São sintomas de um sistema que começa a perder a capacidade de se autorregular, de um arranjo de poder que foi construído sob a premissa de que certas pessoas simplesmente não seriam alcançadas pela lei. A conta sempre chega. No Brasil, ela costuma chegar com juros. O pêndulo está em movimento. E desta vez, quando ele bater do outro lado, vai bater forte.
Gesiel Oliveira é amapaense, tem 48 anos, é Professor Especialista em Geopolítica Mundial e Pós-Graduado em Direito Constitucional, é escritor, palestrante, colunista e analista político.
Comentários
Postar um comentário