segunda-feira, 13 de novembro de 2017

10 argumentos para a ordenação de mulheres ao ministério (Por Gesiel Oliveira)

Com a chegada da nova convenção nacional, a CADB, Convenção Nacional das Assembleia de Deus no Brasil, que será lançada oficialmente no dia 02 de dezembro em Belém do Pará, e com a possibilidade do reconhecimento do ministério pastoral feminino que será um dos tantos diferenciais desta convenção, muitos pastores de outras regiões do Brasil ligados à CGADB se manifestaram contrariamente à iniciativa. Resolvi então escrever um artigo sobre o tão polêmico tema. Respeitando os discordantes, quero expor aqui as razões com fundamentos bíblicos pelas quais defendo a ordenação feminina.

1 – Em Cristo acabam as distinções étnicas, sociais e sexistas

“Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” Gálatas 3:28
Se Deus pode incluir judeus e gentios no ministério, por que não incluiria tanto homens quanto mulheres? Se vamos manter a distinção entre sexos, deveríamos também manter a distinção entre dias, meses, anos, entre judeus e gentios, entre animais limpos e impuros, etc.

2- Muitos pastores argumentam que não há fundamento Bíblico para ordenação de mulheres.

2.1 Mulheres sempre exerceram autoridade no AT.
Mesmo sendo vilipendiadas no AT, ele ainda relata casos de várias mulheres que exerciam autoridade ministerial sobre os homens. Raquel era pastora. Miriã era profetisa. Débora era juíza e profetisa. Hulda era profetisa, na mesma época em que Jeremias e Sofonias também o eram, mas foi à ela que foram procurar. A mulher de Isaías também era profetisa. E vários outros exemplos mostram que em alguns casos a mulher era respeitada como líder divinamente chamada.

2.2 Mulheres sempre exerceram autoridade no NT.
Quem profetizou no templo ao ver o menino Messias? Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Além de mulher, velha e viúva.

Em Romanos 16:1, o próprio Apóstolo Paulo recomenda a Febe, que era diaconisa (serva) da igreja de Cencréia. E no mesmo capítulo (v. 7) fala de Júnia, uma eminente apóstola.

E em I Coríntios 11:5  "Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada.". Paulo implicitamente fala que a mulher pode profetizar, que seria o mesmo que pregar, desde que o faça com a cabeça coberta. Como é que alguns capítulos depois ele as proibiria de falar na igreja? Se quem profetiza edifica a Igreja "mas o que profetiza edifica a igreja" I Co 14:4, e uma mulher profetiza, então ela edifica a igreja? Então, ela ensina a igreja?

A chave está na interpretação dos últimos versículos de I Co 14. No versículo 31 ele diz que todos podem profetizar. Isso incluiria as mulheres, não incluiria? E nos versículos seguintes ele fala de reverência no culto, e que por isso as mulheres devem interrogar a seus maridos em casa, para não causar constrangimento na igreja.
Quem sabe quais seriam as perguntas que elas queriam fazer na igreja? Alguém pergunta na igreja, quando o pregador está a ministrar, mesmo que queira mesmo saber isso?

E vejamos um dos casos mais importantes: Júnia citada pelo Apóstolo Paulo como uma apóstola. Romanos 16:7 “Saudai a Andrônico e a Júnia, meus parentes e meus companheiros na prisão, os quais se distinguiram entre os apóstolos e que foram antes de mim em Cristo”. O próprio Paulo reconhece ela como apóstola. E eminente apóstola. Importante apóstola. Portanto, Júnia era mulher e apóstola. Por isso entendemos que Cristo não morreu só pelos homens. Mas também pelas mulheres. Por que então pretendemos excluí-las do ministério (serviço) cristão? Ele fez todos nós sacerdócio real. Fez sacerdotisas também.

3 – A atividade pastoral é, antes de tudo, um dom, uma chamada, uma vocação:

O argumento usado por Pedro para justificar a inclusão dos gentios na igreja foi o dom do Espírito que lhes fora concedido da mesma maneira como aos judeus. Como os apóstolos poderiam impedir a sua inclusão? Semelhantemente, a igreja deve reconhecer o dom pastoral que tem sido concedido a indivíduos do sexo feminino. Ordenar nada mais é do que reconhecer o dom. Negar-se a reconhecer o dom conferido por Deus é o mesmo que resistir a Deus. Confira:
“Portanto, se Deus lhes deu o mesmo dom que a nós, quando havemos crido no Senhor Jesus Cristo, quem era então eu, para que pudesse resistir a Deus? E, ouvindo estas coisas, apaziguaram-se, e glorificaram a Deus, dizendo: Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida.” Atos 11:17-18

Se os líderes atuais reconhecessem o dom pastoral que Deus tem concedido à mulheres, toda discussão cessaria. Alguns, mesmo reconhecendo do dom, negam o título. Algumas denominações preferem chamá-las de ‘missionárias’, ‘doutoras’, mas jamais ‘pastoras’. Chega a ser ridículo. Em contrapartida, encontramos muitos homens que ostentam o título sem jamais terem sido vocacionados para o desempenho do pastorado. Patético e lamentável.

4 – O Dom de Profecia é dado tanto a homens quanto a mulheres:

“E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito.” Joel 2:28-29

De acordo com o discurso de Pedro no dia de Pentecostes, tal profecia cumpriu-se cabalmente quando o Espírito foi profusamente derramado sobre os 120 discípulos reunidos no cenáculo. Ora, se as mulheres devem manter-se caladas na igreja, conforme interpretam alguns a instrução paulina, logo, como elas poderiam profetizar? Por linguagem de sinais? Lemos em Atos 21:8-9 que Filipe, um dos sete diáconos originais, também reconhecido como evangelista, tinha quatro filhas que profetizavam. E o que seria “profetizar” dentro do contexto neotestamentário? Paulo responde: “o que profetiza fala aos homens, para edificação, exortação e consolação” (1 Coríntios 14:3). Os mesmos que se manifestam contrários à ordenação feminina dizem que o exercício do dom de profecia está ligado à atividade pastoral. O pastor é o profeta da igreja. Através da pregação, ele edifica, exorta e consola. Ora, ora… Seguindo a mesma linha de raciocínio, uma mulher que tenha recebido de Deus tal dom, estaria habilitada pelo Espírito a exercer o ministério pastoral.

5 – O sacerdócio universal é dos crentes em geral, sem distinção de sexo:

Alguém poderá argumentar que embora encontremos profetisas nas Escrituras, jamais encontramos sacerdotisas. Mas "peraí"… Cristo não substitui o sacerdócio levítico por um eterno, onde todos somos igualmente sacerdotes?

“Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (…) Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” 1 Pedro 2:5,9

Eis um dos pilares da reforma protestante. Todos os crentes são sacerdotes, sem importar seu gênero. Manter a distinção entre clero e leigos é um ranço indesejável que herdamos do romanismo. E como sacerdotes, temos duas atribuições: a) oferecer sacrifícios espirituais a Deus b) anunciar as virtudes d’Aquele que nos chamou das trevas para a luz. Homens e mulheres estão igualmente incumbidos disso. Ora, por que razão deveríamos privar mulheres de celebrar os sacramentos/ordenanças (Leia-se Ceia e Batismo)? Conheço denominações em que as mulheres podem ensinar, pregar, trabalhar na secretaria, evangelizar, mas não podem celebrar a ceia ou o batismo. Isso não faz o menor sentido. Quem está habilitado a anunciar as virtudes do Deus vivo e a oferecer sacrifícios espirituais também está habilitado a partir o pão e batizar. Questão de coerência. O problema é que os homens não querem abrir mão da proeminência. Durante a celebração da primeira eucaristia, Jesus despiu-Se diante dos discípulos, cingiu-se de uma toalha e lavou-lhes os pés. Alguns entendem que o lava-pés seria uma cerimônia complementar da Ceia do Senhor. Mesmo que não encaremos como uma ordenança, não podemos fazer vista grossa ao fato de que foi durante a Ceia que Ele nos deu tal exemplo. Escrevendo a Timóteo, Paulo diz que antes de inscrever uma viúva para ser socorrida pela igreja, dever-se-ia verificar se a mesma praticou toda a boa obra, inclusive lavar os pés aos santos (1 Tm.5:10). À esta altura, o lavar os pés dos irmãos havia se tornado numa prática constante na igreja. Jesus deixara o exemplo aos Seus discípulos homens, porém, mesmo as mulheres a observavam. Isso fazia parte da diaconia, exercida tanto por homens quanto por mulheres.

6 – Foi a uma mulher que Jesus confiou o primeiro “ide” após Sua ressurreição.

Jesus poderia ter aparecido primeiramente aos Seus discípulos homens, mas preferiu aparecer primeiro a uma mulher, a quem confiou Seu primeiro “ide” (Jo.20:17). É possível que os discípulos tenham se sentido desprestigiados por isso. - Por que a uma mulher, e não diretamente a nós? Talvez isso indicasse a importância que Jesus atribuía ao gênero feminino na difusão do Evangelho.

7 – Há evidências sólidas de que havia liderança feminina na igreja primitiva.

“Recomendo-lhes nossa irmã Febe, serva da igreja em Cencréia. Peço que a recebam no Senhor, de maneira digna dos santos, e lhe prestem a ajuda de que venha a necessitar; pois tem sido de grande auxílio para muita gente, inclusive para mim. Saúdem Priscila e Áqüila, meus colaboradores em Cristo Jesus. Arriscaram a vida por mim. Sou grato a eles; não apenas eu, mas todas as igrejas dos gentios. Saúdem também a igreja que se reúne na casa deles. Saúdem meu amado irmão Epêneto, que foi o primeiro convertido a Cristo na província da Ásia. Saúdem Maria, que trabalhou arduamente por vocês. Saúdem Andrônico e Júnias, meus parentes que estiveram na prisão comigo. São notáveis entre os apóstolos, e estavam em Cristo antes de mim.” Romanos 16:1-7

Quanta informação valiosa numa simples saudação! No texto original, Febe é chamada “diaconisa na igreja em Cencréia”. De acordo com o testemunho do autor patrístico Teodoreto de Ciro (393 – 466 d.C.), Febe era uma pregadora itinerante cuja fama correu o mundo todo. “Ela era conhecida não apenas entre os Gregos e Romanos, mas entre os bárbaros também”. E Febe não foi a única. Uma pedra tumular foi achada em 1903 no Monte de Oliveiras com esta inscrição: "Aqui jaz a serva e virgem noiva de Cristo, Sofia, a diaconisa, a segunda Febe". Isso demonstra que Febe tornou-se numa espécie de referência de liderança feminina na igreja primitiva.

Em sua recomendação, Paulo dá testemunho de que Febe teria sido de grande auxílio para muita gente, inclusive para ele mesmo. O texto original nos fornece uma compreensão um pouco mais acurada: "Porque ela tem sido indicada, realmente por minha própria ação, uma oficial presidindo sobre muitos."

O termo traduzido como “auxílio” é prostatis (Rom. 16:2). Esta palavra não é traduzida dessa maneira em nenhum outro lugar nas Escrituras gregas. Foi uma palavra comum e clássica que significava "padroeira ou protetora, uma mulher colocada por cima dos outros". É a forma feminina do substantivo masculino prostates, que significa "defensor" ou "guardião" quando se refere aos homens. Em 1 Timóteo 3:4-5,12 e 5:17, o verbo proistemi é usado a respeito das qualificações dos bispos e diáconos quando Paulo ordenou aos homens a "governarem" bem as suas casas, que incluiu cuidar das suas necessidades. O que foi que significou para homens, deve significar o mesmo para as mulheres. O que foi que estes bispos e diáconos fizeram para as suas casas, Febe fez para a igreja e Paulo. As posições foram idênticas.

Se nós recusarmos a admitir que Febe "governou", ou "liderou", ou foi uma "defensora", ou "guardiã", então nós precisamos rebaixar os diáconos para qualquer nível em que Febe estava ministrando. Se Febe só "auxiliou”, então é só isso que os diáconos fizeram. Seria muito inconsistente traduzir a palavra como "governador" quando se refere aos homens e "auxílio" quando se refere as mulheres.

Entre os que recebem a saudação paulina, destacam-se Priscila e Áquila, responsáveis por ensinar o Evangelho com mais precisão a Apolo, um dos mais eloquentes pregadores da época. Propositadamente, Paulo menciona Priscila antes de Áquila, o que poderia soar indelicado, para indicar sua importância ministerial. Um pouco mais adiante, Paulo nos revela dois personagens curiosos, a saber, Andrônico e Júnias, “notáveis entre os apóstolos”. Se, de fato, ambos, marido e mulher, eram considerados “apóstolos”, não sobre margem pra discutir sobre a legitimidade da liderança feminina na igreja primitiva.

8- Frida Vingren foi um exemplo de pastora no início da história da Assembleia de Deus no Brasil.

Não podemos nos esquecer de Frida Strandberg. A liderança desta mulher nos chama muita atenção, pois sua atuação foi de suma importância para a consolidação da AssemblEia de Deus no Brasil. Frida nasceu em junho de 1891, no norte da Suécia, era de uma família de crentes luteranos (a Igreja Estatal Oficial na Suécia). Formou-se em Enfermagem chegando a ser chefe da enfermaria do hospital onde trabalhava. Tornou-se membro da Igreja Filadélfia de Estocolmo, onde foi batizada nas águas pelo pastor Lewi Pethrus, em 24 de janeiro de 1917.

Neste mesmo ano recebeu o batismo com o Espírito Santo e o dom de profecia e se sentiu vocacionada para a obra missionária sendo enviada pelo pastor Pethrus para o campo missionário brasileiro e, chegando a Belém/ Pará, se casou Gunnar Vingren em 16 de outubro de 1917. Contraiu malária em março de 1920 e quase morreu. Recuperada viu seu marido pegar a mesma enfermidade várias vezes. Depois de muitos anos no Pará, a família Vingren migra para o Rio de Janeiro, seguindo o mesmo processo da migração nordestina.
Frida Vingren (nome de casada) desenvolveu grandes atividades evangelísticas, abriu frentes de trabalhos e igrejas  em muitos lugares do Rio de Janeiro. As atividades de assistência social, círculos de oração e grupos de visitas ficaram também sob sua responsabilidade. Também exercia a função de docência nas classes de Escola Dominical e ministrava Estudos Bíblicos, pois era versada nas escrituras, estudando teologia. Era responsável – no inicio da obra no Rio de Janeiro – pela leitura devocional nas aberturas dos cultos, pela execução musical dos hinos – ela era organista e tocava violão – e, quando Gunnar Vingren se ausentava da Igreja em visita ao campo missionário, Frida substituía-o pregando e dirigindo os cultos e trabalhos oficiais com muita unção e autoridade dadas por Deus. Frida exerceu a direção oficial dos cultos realizados aos domingos na Casa de Detenção no Rio de Janeiro e era excelente pregadora, exercendo sob seus ouvintes grande carisma. Pregava e dirigia os cultos nos pontos de pregação da AD no Rio de Janeiro, em praças públicas e áreas abertas. Os cultos ao ar-livre promovidos no Largo da Lapa, na Praça da Bandeira, na Praça Onze e na Estação Central eram dirigidos por Frida, tendo Paulo Leivas Macalão como seu auxiliar direto.

Articulou-se como escritora de diversas matérias nos jornais oficiais da AD, como os jornais Boa Semente, O Som Alegre e Mensageiro da Paz (este último agregou os dois primeiros). Ela escrevia mensagens evangelísticas e traduzia vários outros textos e hinos da língua escandinava. Foi também comentarista das Lições Bíblicas de Escola Dominical (hoje revista oficial da CGADB para a Escola Dominical) na década de 1930.

Além de excelente escritora, Frida sempre se dedicou à música. Cantava, tocava órgão, violão e compunha hinos de grande valor espiritual. Ele foi compositora de nada menos que vinte e três hinos da Harpa Cristã e alguns destes têm forte essência escatológica. Frida, ao que parece, não foi simplesmente uma colaboradora no processo de implantação da AD. Ela foi, juntamente com seu marido, a principal líder da Igreja entre 1920 e 1932. Alencar alega que [Daniel] Berg é nulo […] Como Berg é inexpressivo na liderança, e Vingren, doente, ficou pouco tempo efetivamente na liderança, fica a dúvida sobre quem de fato dirigia e dava “as cartas” nesta igreja em seus primeiros anos: seria Frida Vingren que exerceu a liderança nesse interregno?  O modelo de liderança de Frida Vingren, segundo relata Alencar, incomodou muito a liderança masculina da AD. 

Frida é o modelo de uma líder completa, numa época em que as mulheres ainda não participavam da vida política do país nem mesmo como eleitoras, mas a AD permite que elas, excepcionalmente, sejam pastoras e ensinadoras. O que incomoda então é a influência de Frida Vingren? Com certeza! Ela prega, canta, toca, escreve poesia, textos escatológicos, visita hospitais, presídios, realiza cultos e – nada comum – dirige a igreja na ausência do marido (e… na presença também) […] na foto dos missionários… que participaram da Convenção de Natal [Rio Grande do Norte, 1930] ela é a única mulher que aparece. Onde estão as esposas dos outros [missionários e pastores]?… Frida chega a escrever um texto no Mensageiro da Paz… disciplinando a conduta dos obreiros.  Frida é vista como uma mulher extraordinária. Ivar Vingren argumenta que a esposa do irmão Vingren, foi também uma missionária fiel, perseverante e zelosa, que além do cuidado pela família, soube participar e ajudar no trabalho do seu esposo. 

Grande é a multidão de almas que ela ganhou para Jesus durante estes anos de luta junto com o seu esposo.  Frida, numa das cartas selecionadas na obra autobiográfica dos Vingren, expressa o seu esgotamento físico e seus sentimentos acerca de seu trabalho pioneiro no Brasil. Ela enumera as dificuldades na categoria “tribulação”, sofrimento” e “agonia”. Mas tem muita esperança, quando contempla os sinais de Deus operando na Igreja e nas congregações. Ela declara que tem pagado o preço do trabalho, mas sabe que nada é em vão perante o Senhor. A missionária – dirigente dos trabalhos oficiais na AD do Rio de Janeiro (até então Missão Sueca) nesta mesma carta demonstra um sinal de frustração por ter de entregar a direção do Jornal “Mensageiro da Paz” aos líderes nacionais. O Senhor sabe de tudo, eu não quero defender-me, pois não sou sem falta, mas aquele dia tudo se revelará […] Agora, depois que entregamos a direção do jornal “Mensageiro da Paz”, eu pensei então que o nosso tempo aqui no Brasil talvez esteja terminado ou o Senhor talvez tenha alguma outra missão para nós cumprirmos […] Para mim é como arrancar o coração do meu peito, quando penso em deixar o Brasil para talvez nunca mais voltar! É difícil aceitar que Frida seja “sem falta”. Ela faz tudo e assume toda a responsabilidade da Igreja em São Cristóvão/RJ além de cuidar das congregações ligadas a esta Igreja, dirigir o jornal e articular outros trabalhos acima citados. 

Frida sofre um esgotamento físico que chega a atingir o sistema nervoso e alega sofrer do coração. Sinais claros de cansaço de uma pessoa que se dedica integralmente à obra da Igreja. É complicado vê-la somente como colaboradora ou à sombra de Vingren. Frida desabafa quando diz que “Gunnar tem estado enfermo a tanto tempo, que faz muito tempo que ele nem tem podido participar do trabalho”. Por causa da enfermidade de Gunnar Vingren, este não teve o tempo e a energia suficiente para poder assumir o trabalho. Quem assume o trabalho integralmente é Frida! Apesar de Samuel Nystrom – teórica e documentalmente – ser o segundo dirigente da Igreja na ausência de Gunnar Vingren. É fato que Frida é uma mulher humilde que compreende seu papel de liderança e, sem soberba, relata como Deus, em uma revelação dada a uma irmã, a via quando ela auxiliava seu marido. Quando nós [Gunnar e Frida] saímos do Pará e viemos ao Rio de Janeiro, uma irmã no Pará teve uma visão. 

Ela viu como Gunnar estava ajuntando frutas maduras num grande pomar e ela me viu também num canto do pomar, trabalhando com uma bomba de água, que estava regando todas as árvores. Esta visão está muito próxima à lógica do ministério apostólico compreendido por Paulo. “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (1 Co. 3.6). Gunnar seria Paulo? Frida, Apolo? A compreensão hermenêutica pentecostal pode nos abrir para essa possibilidade interpretativa. Mas, Frida nunca esteve “num canto do pomar”. O fato é que Frida Vingren, com o agravamento da enfermidade de seu marido, foi preterida pela liderança nacional. Em 1932, por causa do estado de saúde de Gunnar, toda a família Vingren é obrigada a voltar à Suécia para cuidar da saúde de Gunnar. Neste mesmo ano, antes de viajar para a Suécia, o casal Vingren sofre com a morte de sua filha caçula. Frida perde o que lhe é mais precioso no período de dois anos (1932-1933). Perde sua filhinha, e é forçada pelas circunstâncias explícitas (doença do marido) e implícitas (a oposição da liderança nacionalista e masculina) a deixar o trabalho eclesiástico por ela exercido e suportar a perda – por falecimento – de seu marido. Sete anos depois do falecimento de Gunnar, Frida também entra pelas portas das mansões celestiais e as obras de suas mãos a acompanharam e naquele dia tudo se revelará.

Frida Vingren é o típico modelo de mulher pentecostal que exerceu o seu ministério pastoral na periferia do poder clerical de um ambiente evangélico predominantemente patriarcal e centrado na figura do homem. Dentro das AD se constituíram as sociedades eclesiais femininas como grupos de visitação, de oração, de louvor, assistência social; Frida é a origem de tudo isso no Brasil. As mulheres exercem espaço na liturgia, na pregação, no culto, na educação bíblica, na assistência social e no serviço religioso, mas dificilmente o ministério pastoral.

Frida (representando aqui o ministério feminino) é um protótipo de liderança silenciada e, infelizmente, marginalizada nas AD. Rosemary Ruether diz que O ministério feminino baseado em dons carismáticos renasce continuamente na prática e também é continuamente marginalizado do poder nas instituições históricas das igrejas. As mulheres pentecostais têm um papel fundamental na organização e manutenção das estruturas laicas das igrejas pentecostais, como podermos ver na biografia de Frida Vingren. Contudo, elas são marginalizadas, inferiorizadas e preteridas dentro das estruturas significantes de poder. Sempre estiveram à margem dentro do modelo patriarcalista das igrejas pentecostais clássicas, enfrentando ao longo de toda história da igreja resistência masculina contra a sua liderança.

A liderança nacional desde a 1ª. Convenção Geral das Assembléias de Deus do Brasil (caso Frida Vingren, por exemplo) tem feito de tudo para tirar de foco a discussão sobre o ministério feminino na Igreja. O Ministério de Madureira tem consagrado mulheres para o exercício do diaconato e para o ministério missionário. As mulheres dos pastores presidentes – anteriormente consideradas “a esposa do pastor…” – agora têm sido reconhecidas como missionárias. O Ministério do Belém – ligado a CGADB, nem ao diaconato tem consagrado mulheres. As mulheres não são consultadas acerca das grandes decisões e iniciativas institucionais. A nova convenção, CADB, vem com o claro propósito de resgatar a importância histórica da mulher nesse processo de evangelização, objetivando a valorização e reconhecimento dessa chamada. É importante frisar que a novel convenção não vai obrigar as convenções regionais a aceitarem a consagração feminina, apenas se limitará a reconhecer as consagrações de convenções locais que já aceitam, reconhecem e consagram pastoras aos seus quadros de convencionais. As igrejas e convenções que não as admitem, terão suas decisões respeitadas.

9- O contexto histórico bíblico era patriarcal, e portanto, preteria a mulher e centralizava no homem.
A sociedade, no período em que a Bíblia foi escrita, era extremamente machista. A bíblia não pode prescindir desse contexto histórico. Por isso não podemos pensar que um autor sagrado pense como nós nos dias de hoje, em relação aos direitos das mulheres. Apesar disso, é evidente que a base de igualdade entre os dois sexos  já era colocada em diversos textos sagrados.

10 – Porque está comprovada a capacidade feminina em exercer qualquer papel antes atribuído somente aos homens.


Tenho sido testemunha do flagrante sucesso obtido por mulheres no exercício do ministério pastoral. Sou de uma convenção estadual que reconhece a ordenação de mulheres ao Santo Ministério. Algumas obtiveram êxito onde homens falharam. Eu poderia citar vários casos do meu conhecimento por onde tenho passado onde tenho visto mulheres exercendo o pastorado em regiões ribeirinhas da Amazônia, tribos indígenas, penitenciárias, periferias, favelas, etc. Depois de todas as conquistas das mulheres na segunda metade do século XX pra cá, seria, no mínimo, anacrônico acreditar em sua incompetência para a liderança eclesiástica. Como visto acima, há fundamento Bíblico para essa ordenação. Muito antes da revolução cultural, em tempos bíblicos elas já demonstravam suas habilidades como rainhas, juízas, profetizas, e, diga-se de passagem, até pastoras. Vide Ester, Débora, Ana e Raquel. Por que razão Deus as privaria do privilégio de serem instrumentos do Seu amor para cuidar do Seu rebanho particular? Lamento que influentes lideranças evangélicas e até escritores renomados tenham ainda uma visão tão tacanha e anacrônica nesse sentido. Lamento ainda mais por saber que muitas mulheres cheias do Espírito Santo tem seu trabalho subaproveitado por puro preconceito machista em muitas igrejas e que nunca serão reconhecidas por puro pensamento tradicional repassado de geração em geração. Dizer que não há base bíblica para tal ordenação é mais cômodo e fácil, e torna a discussão mais fácil de ser encerrada por quem está atrelado às correntes mais ortodoxas. Mas felizmente essa nova convenção, CADB, vem ao encontro dessa histórica aspiração de tantas pastoras que labutam em todo Brasil, reconhecendo esse abençoado e crescente ministério feminino em todo o Brasil.

8 comentários :

  1. Parabéns! É disso que precisamos: argumentos. Enquanto isso, a AD brasileira engole os camelos.

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  2. Paz de Cristo Jesus! Me desculpe discordar, mais não vi em nenhum dos argumentos, um respaldo Biblico para ordenação de Mulheres a Pastora.

    Poderia citar varias passagens Biblicas que não apoiam tal ordenação. O que vejo hoje é que os Assembleianos estão muito preocupados com a questão de agradar a atrair pessoas para as suas igrejas, e com isso estão abrindo mão de doutrinas ja implantadas e aceitam por todo o povo Cristão. Agora diante de varias situação de interesse do Homem, eles estão jogando por terra as doutrinas para buscar reunir o maior agromerado de pessoas. Mulher Pastora no meu ponto de vista é Anti Biblico. Deus nunca deu autoridade Eclesiástica pára a Mulher, A Mulher não pode ter autoridade espiritual sobre o Homem.

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  3. Equivoco partindo do principio da criação e do seu autor Deus! Não ha respaldo
    Na teologia Bíblica e Antropologia da Religião deparamos com fenômenos supra culturais, que são fenômenos da crença e do comportamento culturais que tem sua origem fora da cultura humana. A religião encontra-se neste âmbito supra cultural, onde o Reino de Deus se sobrepõe à cultura dos homens. Este fenômeno supra cultural ocorre quando o emissor seja de fora da cultura receptora e fora de qualquer cultura em particular

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  4. Problema é o de interpretarmos “sois um em Cristo” como significando “sois iguais em Cristo”. Numa recente tese de mestrado, Ann Coble demonstrou de forma convincente que e nesta passagem não está implicando igualdade, mas simplesmente unidade. Após dar exemplos de interpretações desta passagem na história da Igreja (pp. 7-21), ela analisa e critica a interpretação feita pelos progressistas ou igualitários, especialmente Krister Stendahl (pp. 22-37) e a interpretação dos diferencialistas (pp. 38-48). Coble demonstra por meio de considerações léxicas e exegéticas que Gálatas 3.28 está abordando a questão da unidade da Igreja, e não de igualdade de funções ou papéis. Ela argumenta que a palavra e (=ij (“um”) enfatiza unidade – não igualdade. Se Paulo quisera enfatizar igualdade poderia ter usado palavras como i)) /soj (“igual”) ou i/) so/thj (“igualdade”) (pp. 49-58). Sua conclusão é que os estudiosos progressistas ou igualitaristas não podem usar esta passagem como um texto chave na afirmação de oportunidades de ordenação eclesiástica idênticas para homens e mulheres.(NICODEMUS, 1997 p.20).

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  5. Se de fato a ordenança de Paulo em Corinto fosse com que a mulher ficasse calada, todas igrejas (denominações), ou pelo menos a maioria delas estariam erradas, pois em qualquer igreja e/ou convenções mulheres ministram, pregam, cantam, ensinam... Como explicar, se é pra ficarem caladas, não deveriam nem sequer cantar.
    Acho que isso é nada mais do que medo de perderem postos na igreja.
    Deus tenha misericórdia.

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  6. Perfeito, impecável, muito ajuda quem apoia, mas não buscou conhecimento suficiente para contra-argumentar com os contrários. Parabéns meu querido irmão!

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  7. A Paz do Senhor!
    Em nenhum dos argumentos biblicos usado pelo querido irmão dão respaudo a ordenação pastoral de mulheres, sobre os dons ministeriais Paulo é enfático em coloca-los todos no masculino...concordo com o serviço diáconal para mulheres e nada vai impedir de que as mesmas, preguem, ensinem etc...mas cargo pastoral não. Sabemos como e em qual ocasião as mulheres começaram as suas reivindicações dando início ao movimento feminista o que trouxe muito prejuízo principalmente a preservação da família...não dá para comentarmos isso agora mas quero aqui deixar minha opinião e afirmando que não sou machista e reconheço que as mulheres foram e sempre serão muito importante na propagação do Evangelho, no ministério de Jesus havia muitas mulheres mas nenhum dos discípulos era do sexo feminino entendo que naquela época havia muito preconceito contra a mulher mas mesmo assim não dá respaldo para isso. Sou assembléiano e aprecio muito o trabalho do Pr. Samuel Camara.

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