segunda-feira, 14 de maio de 2018

Cabralzinho foi mesmo um herói do Amapá?


É fundamental, antes de tudo, que se procure saber sempre por quem determinado personagem histórico é considerado herói? Por que ele merece essa classificação? Quais as variações de significado e importância que o herói assume em situações históricas determinadas?

O final do século XIX foi marcado pelas construções de símbolos de manipulação, como o herói, pois a república precisava se consolidar, principalmente no Norte do Brasil e eram necessários símbolos para ajudar a criar o imaginário republicano no norte do país, pois assim se criou um processo heroico em torno de várias figuras dentre elas Cabralzinho, pela sua resistência contra os franceses no dia 15 de maio de 1895, Cabralzinho foi um político que sempre foi alvo de duras críticas, principalmente pelo seu feito “heróico” ao mesmo tempo de elogios por alguns estudiosos e historiadores.

Francisco Xavier da Veiga Cabral nasceu em 05 de maio de 1861 e faleceu dia 18 de maio de 1905 em Belém aos 44 anos de idade, era paraense, natural da cidade de Cametá foi comerciante por muito tempo, exerceu vários cargos públicos, assim como escrivão e despachante da Alfândega Paraense, chegou ao Amapá, depois de se envolver em uma revolta armada, para restaurar a monarquia, depor o governador na época Duarte Huet Bacellar e impedir a posse do novo Governador da Província do Grão-Pará Lauro Sodré.

O historiador Carvalho diz que os [...] heróis são símbolos poderosos, encarnações de idéias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadões a serviço da legitimação de regimes políticos. Não há regime que não promova o culto de seus heróis e não possua seu panteão cívico [...] (CARVALHO, 2009, p. 55).

Francisco Xavier da Veiga Cabral, mais conhecido como “Cabralzinho”, tinha esse apelido por causa de sua baixa estatura.

Em 1891, Cabralzinho liderou uma revolta contra o governo do PRP (Partido Republicano do Pará), o que deixou a cidade Belém em “pé de guerra” e colocou o governo sob alerta, esta ficou conhecida pela historiografia como Revolta 11 de Junho ou Revolta do Cacaolinho, o grande motivo deste conflito foi a votação da Constituinte Estadual do Pará, que ocorreria na capital paraense, no dia 11 de junho de 1891.
Cabralzinho motivado por interesses partidários de oposição, colocou-se contra o direito de votação da população, que seria inserido na Constituinte do Pará em 11 de junho de 1891. Cabralzinho e uma pequena parte dos democratas não eram a favor da votação, defendendo que ela prejudicaria os interesses políticos da oposição, contudo, no partido não houve consenso sobre a revolta, sendo a proposta derrotada. Veiga Cabral não aceitou a decisão do Partido Republicano Democrata (PRD) e com auxilio de um grande número de praças e oficiais do Corpo de Polícia do Pará somados a correligionários Democratas do interior do Estado, organizou o movimento revoltoso.
Liderados por Cabralzinho, o grupo invadiu o quartel de polícia sendo apoiado por vários membros da corporação. No quartel o grupo se apropriou de uma quantidade considerável de armas lá existentes para fazer à revolta, depois este grupo partiu em direção a residência do presidente do partido Democrata Vicente Chermont de Miranda , o qual não se encontrava em casa, assim amotinados dirigiram-se para o Sítio do Cacaolinho onde ficaram aguardando a chegada de alguns revoltosos da localidade de São Domingos do Capim.
O governo ao saber da revolta organizou uma reação contra os amotinados, e contou com auxilio da Marinha do Brasil  e do Corpo de Bombeiros que cercaram o local e, após grandes disputas, conseguiram vencer o grupo de Veiga Cabral, isto por que o governo prometeu anistiar todos os envolvidos na querela. Entretanto, dias depois do fim do conflito o Governo começou a prender os principais lideres do partido Democrata, exceto Cabralzinho, que fugiu antes de ser preso e exilado. Cabralzinho foi fugitivo para os Estados Unidos da América, retornado apenas após a declaração de anistia aos envolvidos na revolta, mesmo assim Cabralzinho preferiu se instalar na Vila do Espírito Santo do Amapá, pois tinha receio de represália política e também porque soube da descoberta de campos auríferos em Calçoene na área contestada por França e Brasil, que reafirmava a ideia que o “El Dourado” se localizava na Amazônia.

Cabralzinho chegando à vila continuou no ramo do comércio, ganhou muito prestígio (além de dinheiro e terras é claro) no Amapá, fez parte do Triunvirato e foi, a partir da composição deste governo local, que passou a ser conhecido, pois seus feitos como Presidente do Triunvirato começaram a incomodar principalmente os franceses, como afirma Cardoso, ao ressaltar que, nos primeiros anos em que Cabral permaneceu na vila do Amapá não há maiores referências ao seu nome ou qualquer grupo organizado de brasileiros. Foi apenas a partir de 1895 que o governador da Guiana Francesa passou a pedir autorização de interferências no Contestado para o Ministro das Colônias em Paris, em virtude de Cabral ter se tornado governador da vila Amapá, em dezembro de 1894, e instituído uma legislação que permitia a exploração aurífera no leito do rio Calçoene.

Cabralzinho se tornou um líder dentro da Vila do Espírito Santo do Amapá, pois tinha a malícia que todo e bom político têm e começou juntamente com o Triunvirato organizar politicamente e socialmente com legislações aquela região esquecida pelo Governo Brasileiro.

A área do Sagrado Espírito Santo do Amapá pertencia à área contestada desde o século XVII pela França, a qual nunca teve direitos sobre a mesma, conforme tratados que foram assinados, primeiramente o Tratado Provisional de 1700, onde essa área ficou conhecida por algum tempo como Contestado franco-luso, criando o primeiro contestado na área e se tornou, em uma terra de sonhos no imaginário de muita gente, como escravos fugitivos tanto da Guiana Francesa como do Brasil, soldados desertores e criminosos, assim, essa área se tornou um ótimo lugar de refúgio para essas pessoas, mais tarde no decorrer dos séculos XVIII e XIX, essa área foi contestada por França e Brasil.

Segundo o historiador Cardoso (2008), o governo de Cabralzinho era um governo pessoal e que ele era um ditador, as suas ações foram em benefício da elite brasileira, não só aquela que habitavam na área contestada, mas também a que morava em Belém. Essas afirmações são confirmadas quando analisamos o relatório feito pelo cientista alemão Emílio Goeldi, chefe de uma expedição do Museu Paraense de História Natural e Etnografia, conforme o mesmo em seu relato diz que:

[...] apresentei-me em casa do Senhor F. da Veiga Cabral, Governador do Amapá [...] Instalamos o nosso laboratório na Escola Pública; o nosso quartel-general era na casa e no quarto particular de Cabral. Cabral seguiu na mesma noite, a bordo do “Ajudante”, ficando o governo entregue a gente da nossa roda – que pouca ou nenhuma confiança me inspira. É uma oligarchia de capangas [...] A população vive debaixo de uma tirania nojenta e percebi desde as primeiras horas symptomas sérios do descontentamento, de oposição [...] Não quero e não posso acusar diretamente o Senhor Cabral da culpabilidade destes abusos sem conta, praticados tanto nos deportados como nas pessoas livres do lugar [...] Mas que a roda d’elle é ruim, péssima, abjeta – não há dúvida alguma e julgo ser o meu dever esclarecer o Governo Brasileiro acerca d’isto, enquanto que é tempo [...] (GOELDI, 1895 apud ANDRADE, 2000, p. 55).

Há muitas dúvidas sobre o que de fato aconteceu naquele dia 15 de maio de 1895, quando a esquadra francesa, comandada pelo Capitão Lunier, invadiu a Vila do Sagrado Espírito Santo na área do Contestado Brasileiro.


Cabralzinho sempre se põe como governador do Amapá e Trajano por ser um representante francês atrapalhava de certa forma seus planos na região aurífera, que segundo Cardoso,ele, antes de estar relacionado com a representação do herói nacional, tinha interesses reais em torno das expectativas mais proeminentes de quase todos que buscaram o território em litígio a partir de 1893, que era a busca de jazidas auríferas [...] ele fazia parte de todo um contexto histórico, no contestado, marcado pela corrida em busca de jazidas auríferas [...] (CARDOSO, 2008, p. 24).

A prisão de Trajano provocou uma reação imediata por parte do governo da Guiana Francesa, conforme Reis (1968, p.111), “governava a Guiana Mr. Charvein que não demorou em expedir contra o Amapá uma expedição militar, que se transportou no navio de guerra Bengali, sob o comando do capitão-tenente Lunier”. É a disputa pelas jazidas auríferas e pelo território contestado ganhando mais evidência e força. Assim no dia 15 de Maio de 1895 expede-se, a Canhoneira de Guerra Bengali, chegando ao território contestado no intuito de fazer cumprir as determinações dadas pelo governador de Caiena, que era libertar Trajano e prender Cabralzinho.

A expedição francesa do dia 15 de maio de 1895 à Vila do Espírito Santo do Amapá se tornou numa verdadeira carnificina, a mesma foi relatada por Carlos Augusto de Carvalho ministro das relações exteriores da época que matou crianças, idosos, adultos num totalnde 40 mortos, e 4 oficiais franceses mortos, incluindo o seu comandante.

As controvérsias começam pelo próprio Cabralzinho que, em sua carta ele deixa dúvidas se foi ele mesmo que matou Lunier, pois conforme seu relato ao Ministro das Relações Exteriores, uma carta de cunho oficial o mesmo disse, “dei-lhe três tiros com seu próprio revolver que o protrei, levando elle mais duas balas de rifles”, segundo seu relato Cabralzinho não deixa claro que matou o capitão francês, mas o mesmo começa a tropeça em suas próprias palavras, em uma entrevista ao Jornal Folha do Norte, o mesmo em sua entrevista falou, “matei o capitão Lunier com seu próprio revólver”, as controvérsias ficam ainda maiores quando Raiol (1992) coloca em dúvida essa veracidade de Cabralzinho.

O referido autor reforça a especulação que Cabralzinho não matou Lunier ao apresentar o relato do filho de uma sobrevivente do ocorrido no dia 15 de maio de 1895, o senhor Paulo de Souza Magave que em seu depoimento disse:

[...] tinha um prisioneiro, não sei se ela ainda sabe o nome desse prisioneiro, gritou que queria soltasse ele, pra que ele queria morrer, mas não preso [...] ele era baixinho e agüentou no peito do corneteiro [...] e o corneteiro caiu, ai fizeram fogo [...] e o Cabralzinho nessas alturas foi se esconder no mato, né. Quem tava de testa para resolver a parada era um senhor por nome Félix [...] (RAIOL, 1992, p. 200).


Mais tarde esse fato foi confirmado pela própria Dona Ianez Valeriana de Souza Magave, que segundo Raiol (1992, p. 201), já não tinha muitas forças e lucidez pra falar, mas em relação à Cabralzinho a Dona Ianez Falou “falsidade, foi falsidade porque a cabeça era o velho Félix. Aquele homem era guerreiro mesmo. Cabralzinho, Cabralzinho ele foi se esconder [...]”. Essas contradições só alimentam a desconfiança sobre o heroísmo de Cabralzinho e aquela velha brincadeira do “mato ou morro”, como não tinha morro ele correu pro mato, deixando a população a mercê dos franceses, mas o certo é de que Cabralzinho não lutou sozinho contra os franceses, mas levou toda a glória por ele ter feito uma campanha patriótica e heróica em torno dele mesmo, e a população que lutou e morreu foram deixados de lado pelos jornais da época, pela república e principalmente por Cabralzinho.

Dizer que Cabralzinho é herói e esquecer a população que lutou ao lado dele contra a invasão francesa é muita prepotência, pois ninguém ganha uma batalha sozinho, as pessoas que morreram e as que sobreviveram também foram heróis, eram poucas e conseguiram expulsar os franceses, lutaram pelo pequeno pedaço de chão que eles tinham, eram pessoas humildes e conseguiram vencer. Eles foram verdadeiros heróis, que foram esquecidos pela história oficial e positivista em algum lugar da própria história.

Fonte: Silva, Diovani. 2014.

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